Percival Puggina
Conta-se que cinco macacos teriam sido colocados num compartimento onde havia uma escada e um cacho de bananas pendurado no teto. Sempre que qualquer deles subia a escada para apanhar frutas, um jato de água fria atingia os demais, que passaram a associar as três coisas: escada, banana e banho frio. Assim, após algum tempo, o membro do grupo que chegasse aos degraus era retirado pelos outros, que lhe davam uma surra. Posteriormente, foi retirado um dos cinco e introduzido na jaula um macaco novo. Ao ver as bananas, o novato tomou o rumo da escada, sendo apeado e surrado pelos quatro, até aprender que aquilo não se fazia. Em continuidade, um após outro, todos os animais foram sendo substituídos, até não restar, no ambiente, qualquer membro do grupo que havia recebido os jatos de água. As tentativas e as surras, porém, persistiram. Se fosse possível perguntar a razão pela qual agiam assim, a resposta, certamente, seria: "As coisas por aqui sempre funcionaram desse jeito".
O ser humano é bem mais complexo, seja como indivíduo isolado, seja em âmbito familiar, convívio social, parte de uma multidão, membro de um coletivo, etc. Há experiências de Psicologia Social com seres humanos, muito reveladoras — como a narrada no filme “O Experimento de Aprisionamento de Stanford” —, que causam arrepios reais e nos fazem refletir sobre a força do condicionamento.
“Sim, e daí?”, perguntará o leitor, já cansado desta longa introdução. Daí que nosso país acaba de ser palco de uma gigantesca experiência de condicionamento social. Ela transcorreu diante dos nossos olhos, com militantes que formaram o Exército do Lula, sob comando do generalíssimo Janones. Com dedos em cruz e pondo sua elevada credibilidade em jogo, ele jura que, de seu QG, não saiu uma única mentira. Declarou um compromisso conjugal eterno com a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Mas, pelo jeito, seu exército mandou o general carpir um alqueire! Imputou ao candidato adversário as mais sinistras intenções, distribuiu falsas narrativas, gastou os adjetivos desqualificativos a ele atribuídos e o difamou com uma intensidade que se precipitou sobre a nação como papel picado jogado de helicóptero.
Foi tão rápida e tão intensa a mobilização dessas forças armadas do impropério, supostamente rebeldes às ordens de seu circunspecto comandante, que – vejam só! – a elas tem sido atribuído um resultado eleitoral que surpreendeu a todos.
Um dia, numa universidade séria, o experimento posto em prática na eleição presidencial do dia 25 de outubro, a histeria com que agiram e a que motivaram, serão objetos de um estudo também sério de psicologia social. O medo ainda não tinha alcançado tamanha dimensão política em nosso país. Os discípulos de Goebbels, com difamações, fanfarronices e descaramento desenvolto, responderão pelo poder cuja vigência preservaram. Se um golpe foi dado antes, hoje há uma revolução em curso, e as revoluções são assim. Deus salve o Brasil dos brasileiros manufaturados pela educação destas últimas décadas!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.