Percival Puggina
O autoritarismo sempre quer impor a história do futuro para navegar nele longe das incertezas. A Nova República morreu disso.
Fui entusiasta da Nova República, nascida em 1985. Voraz por liberdade e democracia, atirei-me aos livros. A política readquiria importância e a bibliografia brasileira de então, sobre o tema, era toda de esquerda. Durante três anos só li em inglês, enchi prateleiras e gastei dicionários até ficar fluente na leitura. Duas décadas antes, adolescente, tivera uma experiência com política estudantil, período em que conheci a esquerda e evitei suas más companhias. Em seguida, veio 1964 e dali para a frente, o cardápio político brasileiro ficou bem curtinho: oferecia revolução pela esquerda e autoritarismo pela direita.
Para esta, para a direita, democracia era impedir a revolução sonhada pela esquerda; para a esquerda, democracia era preparar a revolução como a viam servida em Cuba. Reverenciavam Che Guevara, Fidel e Marx, nessa ordem, e comemoravam a Revolução de Outubro de 1917. O que eu chamava democracia, eles chamavam “democracia burguesa”. Odiavam a burguesia como se saudável, mesmo, fosse o trabalho artesão. Anos depois, quando fui conhecer o regime cubano, olho no olho, descobri um país de “artesãos” muito ocupados nas tarefas de pôr para funcionar com as próprias mãos, precariamente, cacarecos do tempo em que havia produção industrial e era viável importar. Cacarecos funcionando eram caríssimos...
Retomando o fio do texto. Em 1985, a vitória de Tancredo Neves e a derrota do candidato do regime na eleição indireta foram o grito de independência do Congresso Nacional. Depois de duas décadas de futuro com script obrigatório, acabava ali o autoritarismo. O Legislativo retomava a representação que deve expressar a soberania popular. A democracia se reinstalava, nova constituição estava sendo deliberada e a Nova República precisava do consenso democrático de um povo livre. Oh, Liberdade! Quanta dignidade pesa sobre tuas asas. Não as deixes cair.
Tinha 41 anos e passei a exercer intensa atividade política. Porque vivi o período, posso dizer como é a vida numa democracia, sistema que tem, no povo, a fonte dos poderes que institui, sistema no qual todos estão sujeitos às mesmas regras, com foco em elevadas virtudes sociais. Ela é bem diferente do autoritarismo na versão atual, por exemplo, quando, mais uma vez, ninguém tem dúvidas sobre quem é que manda. De excepcionalidade em excepcionalidade, retornamos ao cotidiano dos antigos regimes de exceção.
Infelizmente, a Constituinte de 1988 preservou os vícios do modelo político anterior, que prosseguiram favorecendo a instabilidade da vida pública nacional. Três anos mais tarde, Collor sofria impeachment mobilizado pelo esquerdismo juvenil dos caras-pintadas.
Muito escrevi alertando sobre isto durante a Constituinte: com presidencialismo e voto proporcional para os parlamentos, estavam sendo preservadas as causas dos populismos e dos surtos autoritários que marcaram a maior parte de nossa história republicana, desde Deodoro e Floriano. Repetindo erros, voltamos ao ponto de partida. É preciso restaurar o poder do voto e da representação popular! Quem julga não pode ter estratégias políticas, não pode ter lado no jogo que apita e não pode virar esponja das prerrogativas dos outros poderes. Tampouco pode estabelecer censuras, indicar temas interditos e ser afoito em silenciar a divergência com vistas à autoproteção. O futuro, por fim – e por princípio – não pode ter redatores sem voto. Aliás, nem as tiranias garantem a própria estabilidade, como nos mostra o Irã.
Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras
Flauri Migliavacca - 16/01/2026 11:34:04
Belíssimo texto "o ano que mudou minha vida" Também passei por isto, só não fui a CUBA, mas lendo teus escritos sobre este paiseco, nem precisa pisar lá. Pobre gente....Se não tem um TRUMP pra socorrer esta gente......vão morrer sem nunca ter comido um bife delicioso.....O brasileiro com sua postura de migalhas e cabresto na "bolsa" quando acordaremos já estaremos na Venezuela. Povo sem lideres e estes como todos sabem.....Zema, Tarcísio, Ratinho, Jorginho, Caiado, Castro, etc....poderiam sim peitar o STF, ou melhor, o Morais......Se o Brisola estivesse aqui, esta cena não estaria acontecendo. Quero que saibas que nunca fui brisolista, mas ele levantaria gente e governadores do país inteiro pra fazer o STF voltar a sentar em suas cadeiras. Forte abraçoCARLOS SOARES DE MORAES - 14/01/2026 15:54:28
Prezado Marco Antonio, sou um pouco mais otimista que vc. Nas décadas passadas éramos figuras errantes totalmente dominadas pela esquerda. O próprio professor relata sua experiencia no texto dele. Ai vieram os luminares, Professor Olavo de Carvalho abriu as comportas, o nosso Solgenitizin. Apareceram os intelectuais de direita, padres, pastores, e youtubers também favorecidos pela tecnologia das redes sociais. Estamos mais conscientes, sim, embora ainda perdendo muitas batalhas. abraçoMenelau Santos - 14/01/2026 15:45:28
Prezado Professor Puggina, seu texto é digno de arquivo eterno. Uma coisa deduzi dele. Professor Olavo de Carvalho foi perguntado certa vez como evitar do PT voltar ao poder (eram os saudosos tempos de Bolsonaro), o professor respondeu para espanto de todos, "o poder nunca saiu da esquerda". Tal qual um monstro que transforma no que quiser, a esquerda sempre está no poder independente do poder em que está. Se está no legislativo não deixa o executivo governar. Se está no executivo não deixa o legislativo trabalhar. Se está no judiciário usurpa os outro dois. Portanto, relendo o "timeline" desde de 1985 que o professor delineou chego a conclusão que foi isso. Tancredo era de esquerda, Itamar era, FHC era, e depois as eras PT. A única exceção ocorrida de um "escorregão" da esquerda foi Bolsonaro, que se tratou rapidamente de neutralizá-lo. Só há um diferença hoje em dia, a população está finalmente muito mais consciente.MARCO ANTONIO GEIB - 13/01/2026 12:09:11
Mestre, você já notou que quase tudo que aprendemos e acreditamos .... não vale nada hoje...???Rose Maria - 12/01/2026 10:51:02
Eh você aprendeu a se virar no regime atual do Brasil (ditadura). Escreveu um artigo criticando integrantes do STF, sem os citar nominalmente. É medo que fala ou instinto de sobrevivência?.celso Ladislau Kassick56ncx56ncx36ncx8db67 - 12/01/2026 10:27:26
Minha opinião: - Sempre fui contra ditaduras e presidencialismo! Nunca percebi nelas possibilidade de bem estar e prosperidade do povo; ( excluo USA via dolar ). Opino pela Monarquia parlamentar unicameral, não hereditária! Os povos que tenho boa inveja, são monarquias parlamentares; portanto........Afonso Pires Faria - 12/01/2026 10:02:41
Que belo compêndio dos últimos 40 anos. A nossa CF, na verdade, é uma colcha de retalhos. Pior: muito mal costurada. Parabéns.Aldolino Vavassori - 12/01/2026 09:59:10
Acertou em cheio, Sr. Puggina. Tenho 80 anos. Vivi a Revolução (Servi ao exército em 1964). Depois do exército fui estudar. Nossa desgraça, foi a abertura política e a nova Constituição, feita olhando pelo retrovisor e manteve todos os antigos vícios da política e do populismo. Quanto mais o tempo avança, vai piorando a desgraça, até chegar a atual situação. Leio todos os seus artigos. Parabéns. Grande abraço.SANDRO LUIS HERING - 12/01/2026 09:13:50
Sempre trazendo a nossa memória a lucidez que nos falta, obrigado. Acredito que nosso problema é o caráter já deformado e vai levar tempo para ajustarmos as gerações futuras., tenho quatro netos e o mais velho com seis anos, meu filho está na luta para educar eles com valores morais cristãos tentando assim preservar e construir um futuro melhor.