• Alex Pipkin, PhD
  • 24/02/2021
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O FORTALECIMENTO DA POLARIZAÇÃO E O ENFRAQUECIMENTO DA MORAL

 

Alex Pipkin, PhD
Acho que estou lendo muito sobre economia comportamental, ou será mesmo sobre comportamento humano?

Não importa, o nosso país parece ser o paraíso daqueles que constroem uma suposta razão, a fim de justificar seus próprios achismos e suas preferências.

Não tenho o dado fidedigno, mas penso que o Brasil deva ser um dos principais mercados para psicanalistas e para psiquiatras.
As cabeças verde-amarelas não querem saber da razão e da verdade, desejam mesmo é abusar de artimanhas para comprovarem suas teses e seus desejos.

Alguns dirão que todos se preocupam com a verdade, mas estão distantes dela em função de questões de difícil interpretação. Tenho minhas dúvidas, uma vez que em uma série de temas as evidências não são nada ambíguas.

Claro que os brasileiros pensam, até rápido demais, quase sempre apoiados no piloto automático que os faz extrapolar os instintos, impelindo as pessoas a buscar argumentos - e informações - visando a apoiar e confirmar aquilo que elas acreditam ser “a verdade”.

Tenho a impressão de que uma das principais razões para a escassez de razão, é o fato de que o moderno nesse mundo pós-moderno, da descrença na autoridade, na hierarquia e, sobretudo, na luta acirrada contra a opressão, é a prevalência do indigno reinado da amoralidade. Preceitos morais? Para que serve a moral? Isso é coisa do passado “opressor”, de autoritários, de retrógrados e de caretas.

Uma das grandes leis respeitada pragmaticamente em solo tupiniquim, é a “Lei de Gerson”, em que atitudes e comportamentos imorais e antiéticos são justificados, uma vez que “todo mundo faz”, banalizando tanto o correto como o errado. Não é de se admirar que o Brasil, que tropeça nos incentivos, seja similarmente uma nação em que a impunidade seja protagonista.

Nesse mundo “novo”, ao mesmo tempo aproximado e dividido pelas redes sociais, a política se infiltrou em todas as áreas da vida humana, e a hiperpolarização ideológica e suas ambições parece ter se combinado com o enfraquecimento da influência essencial da moral.

As pessoas se enganam “racionalmente”, contrariando os fatos e as evidências concretas, e se comportam de acordo com suas crenças e seus valores enviesados, buscando argumentos e elementos que justifiquem suas meras crenças e suas reiteradas ações. Os indivíduos tendem a favorecer e a procurar evidências que confirmem seus preconceitos.

Na grande maioria das vezes, os indivíduos sabem que estão se autoenganando, e que o processo de orgia mental necessário para construir fatos, ignorando os verdadeiros e os inconvenientes, dói, mas sempre a dor é menor do que a dos outros e, afinal, os outros também se comportam da mesma maneira. A artimanha é enxergar o comportamento amoral próprio sempre suavizado em relação as ações dos outros indivíduos.

A hiperpolarização parece ter aprofundado a escassez de preceitos morais e éticos, e motivou a homogeneização e a radicalização de grupos de indivíduos que compartilham das mesmas ideias e crenças.
O imbróglio é que poucas pessoas possuem a convicção, a resiliência e a coragem para atuar motivadas pelos princípios morais virtuosos. Boas intenções são necessárias para que se aja na direção do genuíno bem comum, embora as melhores consequências e os resultados pragmáticos dependam de outros indivíduos.

Nossa principal falência é moral, e esta passeia livre e amplamente em todas as correntes políticas.

Se considerarmos a turma progressista da moral superior, é transparente a tentativa de reinventar o mundo, apagando e cancelando o passado e, sobretudo, combatendo os valores virtuosos da civilização ocidental, em especial, os valores da civilização judaico-cristã.

Embora a dita direita diga-se defensora dos valores conservadores, que factualmente são importantes, aparenta que no Brasil, há uma preocupação maior em desafiar as meras crenças do outro espectro político, ao invés de trabalhar e dar o exemplo para transformar esse nefasto quadro atual.
O ambiente é de psicopatia social generalizada, em que embora o ódio, a inveja e o rancor sejam transparentes nos guerreiros sociais - basta olhar para suas posições e suas aparências raivosas -, o caráter e a razão por vezes tomam chá de sumiço pelas bandas a direita.

O cenário é alarmante? O que fazer para mudar?

Sinceramente não disponho da resposta, mas é vital começar a trabalhar para transformar os incentivos e motivar comportamentos e ações baseados na virtude moral e ética.

Penso que a mudança passa pela real educação em casa, pelo ensino nas escolas e nas universidades (tristemente, pelo menos eu não vejo um projeto transformacional, um plano de Estado, de longo prazo), e pela esperança no surgimento de novas e melhores lideranças na vida política, empresarial e social, que possam servir de exemplos saudáveis para os mais jovens.

Nesse mundo brasileiro fake na política, na economia, na cultura, na educação... está difícil, muito difícil de alterar o estado das coisas.
Difícil, muito difícil, mas não impossível.