• Percival Puggina
  • 09/02/2021
  • Compartilhe:

UMA REFLEXÃO PARA CONSERVADORES: FRASES PERIGOSAS!

 

Percival Puggina

 

         O Brasil que queremos só acontecerá num futuro talvez ainda distante e em ambiente de bem formada consciência moral. O passar dos anos, as palestras que faço, as muitas conversas com pais de jovens, me permitiram identificar um grupo de frases (as que seguem são apenas algumas), muito repetidas, que costumo qualificar como “frases perigosas”. Elas expressam ideias irretocáveis em determinado contexto, mas levadas a outro contexto resultam erradas e podem produzir verdadeiras tragédias. São sinais de advertência sobre os tempos em que vivemos.

         1. “Querer é poder”.

         A vontade humana – o querer algo – é condição importante para alcançá-lo. No entanto, há grandes responsabilidades inerentes às ações que adotamos para atingir qualquer objetivo. Elas envolvem a licitude dos meios usados e a efetiva retidão dos fins buscados. Muitas vezes, somos tentados a querer o que fará mal a nós ou a outros. Quando algum desses obstáculos morais se apresenta, aquela “vontade” que nos leva a querer algo deve ser usada para repudiá-lo. Chama-se a isso “força de vontade”, dom a ser cultivado por quem quer viver em conformidade com o Bem.

         2. “Eu sei o que é bom para mim”.

         É verdade. Melhor do que quaisquer outros seres vivos, estamos capacitados a conhecer o que é bom.  Há, porém, uma diferença essencial entre o bom e o Bem, entre perfume e cocaína.  

Estamos perfeitamente dotados por Deus para saber o que “é bom” (no sentido sensorial) para nós. Contudo, saber o que é bom não é o mesmo que conhecer o Bem; a ciência e a consciência de ambos exige analisar o primeiro em relação ao segundo. Aprende-se, assim, que nem tudo o que é bom faz bem. Aliás, como regra, quem só faz “o que é bom” acaba se dando muito mal. Ninguém melhor do que Deus para nos revelar onde está o nosso Bem.

         3. “Errando se aprende.”

         Pode-se dizer que a maior parte das pessoas aprende, mesmo, da maior parte de seus erros. Entretanto, existem erros dos quais nada aprendemos e existem pessoas que parecem nada aprender de seus erros. Aprende deles quem busca acertar e não sabe como fazer, e nada aprende quem erra por gosto.

         Contudo, mesmo quando o erro desempenha papel didático, ele pode ser substituído, com imensa vantagem, por outra forma de aprendizado. Dentre todas as maneiras possíveis de se aprender algo, a pior é que passa pelo erro, principalmente quando provoca dano existencial a si ou ao próximo. Existem erros insanáveis, terríveis.

               4. “Normal é o que a maioria ou todos fazem”.

         Num contexto estatístico, sim, a “normalidade” guarda relação com a tendência geral. Mas no contexto moral, não. A maioria pode estar alcoolizada, drogada, prostituída, corrompida, e isso não caracteriza qualquer normalidade. Se considerarmos, por exemplo, que a maioria é promíscua e que, por isso, a promiscuidade é “normal”, acabaremos tendo que admitir que quem não o for é “anormal”.

         Na perspectiva moral, “normal” é o que está de acordo com uma norma (como indica a etimologia norma/normal/normalidade) ou em conformidade com um preceito moral. É fácil imaginar onde iremos parar se nos deixamos moldar pelas tendências alheias, assim como fica evidente a quanto de nossa personalidade e identidade isso nos faz renunciar.

         Também aqui, como regra, a frase costuma ser usada por quem sabe que fará algo errado, mas tenta “justificar-se” mediante uma grande “integração” na comunidade dos errados.

***

         Como se vê, é preciso ter cautela em relação a certas frases feitas. Elas podem produzir tragédias humanas.

         Não devemos esquecer, por fim, que estas reflexões, quando aplicadas à política, precisam levar em conta que, frequentemente, o Bem não está inteiramente disponível, ou não está disponível de modo algum, tornando necessário optar pelo mal menor. Eleitores com consistente formação moral elegerão – isto é certo – melhores  políticos, dedicados ao Bem de todos e não ao que é bom apenas para eles mesmos.

* Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de puggina.org

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.


Menelau Santos -   12/02/2021 09:07:59

O Professor Puggina sempre trazendo reflexões que passam despercebido no nosso dia a dia. Lembro-me da famosa frase que o narrador Silvio Luis dizia para o Flávio Prado que estava em campo, quando saia um gol. "Flávio Prado, o que é que ninguém viu?" Professor, lembrei-me de uma frase que também acredito ser perigosa: "ninguém é dono da verdade"!

Sinclair I. -   11/02/2021 15:56:36

Um dia desses entrei em uma discussão com um neófito sobre "errando que se aprende". Tal neófito insistia em que somente se aprende errando! Incrível como essas frases prontas são perigosas e molda a mente de quem ainda não consegue discernir. Forte abraço!

FERNANDO A O PRIETO -   10/02/2021 05:47:09

Ótimo! Muito obrigado por tão oportuno e feliz artigo! Precisamos ouvir vozes sábias como a sua, em nossos tempos em que só se ouvem gritos e palavrões, a serviço de teses de pessoas no mínimo mal-informadas,e, no mais das vezes, mal-intencionadas.