Percival Puggina
Considero impossível uma derrota da oposição na eleição presidencial. Com cinco mandatos entre os seis deste século, Lula e os seus são os únicos responsáveis pelo empobrecimento e endividamento dos brasileiros. Desse pacote de prejuízos faz parte a atual configuração do STF, que atinge, ao lado do presidente, o ápice de seu desprestígio.
Há poucos dias foi informado que o messias de Garanhuns teria aconselhado Dias Toffoli a cair fora e, agora, tenta descolar sua imagem da pessoa de Alexandre de Moraes, recomendando-lhe não manchar a própria biografia. Para a conta de Lula vão, também, os muitos desserviços à nação proporcionados pelos presidentes das duas casas do Congresso. Não, não há no Brasil, número suficiente de eleitores manipuláveis ao ponto de reeleger alguém como Lula.
Por isso, enquanto tantos se preocupam com a sucessão presidencial, iludidos pela mitificação que cerca o presidencialismo, eu me preocupo com a eleição dos novos senadores. Aqui, a necessidade parece ser superior à oferta. Os 54 que saírem das urnas terão oito anos de mandato e apenas dentro de quatro anos será possível alterar um terço da composição da Casa. É uma escolha de longo prazo entre liberdade e servidão, entre democracia e tirania.
Eis-nos, então, diante de um paradoxo: por que a eleição majoritária dos senadores poderá não refletir o que se antevê para a eleição majoritária do presidente? Tal fenômeno se deve à gritante desproporção na representação da população no Senado Federal. Enquanto, por exemplo, a região Nordeste tem um senador para cada 2,1 milhões de habitantes, a região Sudeste tem um senador para cada 7,4 milhões de habitantes. Essa desproporção, que se reproduz em todas as regiões, afasta quaisquer simetrias entre os votos para presidente e para senador.
Um problema ainda mais grave me traz aflição em relação às reformas institucionais sem as quais estaremos em muito maus lençóis. Refiro-me ao fato de, em pleno século XXI, partidos brasileiros brotarem como fungo à sombra dos recursos públicos e ainda terem chefes e chefetes nacionais e regionais. São eles que, nestes dias, notadamente entre os cinzentos e mornos partidos do Centrão, estão montando as chapas majoritárias e as nominatas para as eleições de deputados. Parece que retornamos ao Segundo Império, quando, sob o telhado do Partido Republicano, surgiram suas muitas versões regionais. Aqui no RS, foi muito ativo o PRR (Partido Republicano Riograndense); em São Paulo, o PRP; no Rio, o PRFluminense, e assim por diante.
Ao autorizar a ida de Bolsonaro para prisão domiciliar, o ministro Alexandre de Moraes lhe impôs sanções adicionais de natureza política. Foram proibidas concentrações a menos de um quilômetro de sua residência e ele só recebe visitas dos médicos, advogados e membros do mais estreito círculo familiar! Em outras palavras, está impedido de manifestar apoio ou rejeição a nada e a ninguém.
Com disfarce de conduta humanitária, o óbito político de Bolsonaro foi a cereja judicial no bolo da eleição. Nos partidos que se poderiam beneficiar de uma vitória presidencial da oposição, as estratégias para montagem das chapas majoritárias ficaram inteiramente ao gosto dos seus caciques. Valdemar Costa Neto (PL), Gilberto Cassab (PSD), Antonio Rueda (União Brasil) e Marcos Pereira (Republicanos), ao longo dos últimos anos, puxando cordéis, desacreditaram politicamente o Senado. E é exatamente isso que estão fazendo e buscando reproduzir.
O Brasil precisaria, hoje, de eleitores com uma consciência política que quase ninguém efetivamente cuidou de formar.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.