• Percival Puggina
  • 11/10/2026
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Tantas fizeram que agora tanto faz...

 

Percival Puggina

         O que as urnas de outubro tornaram conhecido, na operosidade das máquinas, não é diferente do que vimos nos longos corredores e filas de votação, Brasil afora. Era o povo, consciente de que seu voto deveria proclamar um basta! Era necessário e só o povo poderia efetivá-lo, jogando a água fria das urnas nas quatro patas de barro do poderoso belzebu: sigilos, silêncios, censura e sanções.

 “Supremo é o povo”, proclamavam algumas faixas em recentes manifestações. Naquilo que chamei de “supremo tribunal do cidadão e sua consciência” era impossível não sentir – em cada zona eleitoral, seção de votação ou cabine – as teclas sendo digitadas para expressar a convicção de um eleitor proferindo, democraticamente, seu veredicto. Do lado oposto, sentavam-se pessoas de carne e osso, indivíduos reais, sendo julgados pelos próprios excessos cometidos no manuseio do tabuleiro político. Nunca antes presenciei algo assim.

Aquela eleição, a já histórica eleição de 2026, apenas num viés secundário julgou políticos, parlamentares e governantes. Em sua essência, julgou julgadores! Julgou juízes. Julgou votos monocráticos. Julgou precedentes e jurisprudências. Julgou casos reais, injustiças reais, abusos reais. Julgou blindagens e casuísmos, julgou inquéritos sem fim neste mundo. Para salvar o futuro, julgou o passado.

Tantas fizeram os autoproclamados “supremos”, que agora tanto faz: de livre vontade, ocuparam o epicentro de um imenso universo de decisões e consequências. No dia 4, todo voto popular arrastava consigo uma convicção sobre – digamos assim – os excessos de autoestima e as estratégias políticas majoritárias no Supremo Tribunal Federal destes últimos anos.

O poder, seja qual for seu tipo ou fonte, quando escapa dos controles usuais, se torna uma droga a exigir overdoses crescentes. Uma vez construída a narrativa era preciso seguir em frente. Quanto mais instáveis se revelassem seus fundamentos, mais recorrentes eram a coerção, a imposição do medo e as violações de direitos humanos. Infelizmente, vimos isso acontecer e, assim, qual patas do cavalo de Átila, a brutalidade foi deixando vítimas pelo caminho. Os autores, calorosamente aplaudidos em ambientes fechados, mal podiam sair às ruas. Daí os jatinhos, como cobiçados meios de transporte. Daí o conforto da hotelaria internacional, como aprazível lugar de estar. Daí as derrotas políticas que o dia 4 de outubro, simetricamente, impôs aos controladores dos ambientes controlados.

Os meios de Inteligência Artificial disponíveis ao usuário brasileiro não têm registro histórico de anomalia semelhante à que aconteceu no Brasil. Ministros de uma Suprema Corte ou Tribunal Constitucional assumindo o protagonismo do jogo político, atropelando preceitos, códigos, regimentos e legislação consolidada no país? Impondo obediência aos poderes políticos do Estado com o intuito de preservar o próprio poder de mando, se auto proteger e se blindar? Não, isso só no Brasil.

Eis aí outra exclusividade nacional, punhado de jabuticabas, colhidas na safra de 2026, para Lula levar a Trump em próxima visita.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 


Regina Guimarães -   12/10/2026 19:24:19

O nosso país exige de nós resiliência, não há trégua, nao há descanso, não sobra tempo nem para tomar um fôlego. Seu texto hoje foi um bálsamo, uma pausa, um respiro. Obrigada, professor!

IGNÁCIO J.A. MAHFUZ -   12/10/2026 19:09:42

SALVE, GRANDE MESTRE PERCIVAL PUGINNA! Como sempre, acertas na mosca! Fraternal abraço, Ignácio Mahfuz

Afonso Pires Faria -   12/10/2026 14:33:11

É uma luta de Davi contra Golias. Sinto-me impossibilitado de reagir. Eles não respeitam nenhuma lei. Desisti.

Iara D A Ferreira -   12/10/2026 10:35:30

Parabéns caro jornalista! Artigo de valor, que retratou magistralmente, nosso momento histórico.