• Percival Puggina
  • 31/12/2025
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Sinos da esperança, sirenes de alarme

 

Percival Puggina

         Houve época, nas cidades medievais, em que as catedrais com suas torres e os campanários com seus relógios eram seus principais símbolos estéticos e dinâmicos. Na catedral batia o coração mesmo das comunidades, seu colossal orgulho; o relógio organizava o cotidiano e os sinos marcavam os tempos, seculares e religiosos, chamavam à oração e aos sacramentos, sonorizavam a alegria, o pesar e o perigo.

Escrevo este artigo no dia 30 de dezembro e não lembro de um ano novo tão pouco esperançoso. É de se perguntar: como tocarão os sinos à meia noite de amanhã? Soarão como sinos da esperança ou como repiques de alarme, num país desolado ante as visíveis comorbidades de suas instituições?

Viajante do século XIV, passando por uma cidade envolvida com a construção de sua catedral, deteve-se a visitar o atelier onde trabalhavam os escultores das imagens que integrariam a estética da obra. Em posição de destaque no canteiro dos artesãos, coberto de poeira, operava o mestre escultor, esmerando-se no acabamento de uma estátua. Curioso, perguntou sobre o local para onde estava designada aquela grande peça. A resposta o surpreendeu: “Este é apenas um dos doze apóstolos que serão colocados externamente no topo de cada arcobotante da nossa catedral”. O visitante saiu para a rua, tentou observar a extremidade superior daquelas estruturas, que estimou a 70 metros do chão, e voltou a interrogar o escultor: “Mestre, saí para ver se entendia, mas não consegui. Por que tanto zelo e detalhes num conjunto de peças que, de longe, ninguém conseguirá ver?” A resposta veio em duas palavras: “Deus verá.”

Como foi que perdemos essa dimensão da fé? Quem, e a troco de quê, a tomou de nós? Por que não vemos a nós mesmos – a nós mesmos! – como aquele escultor via sua estátua? Se nos víssemos assim, não passaríamos o recibo do silêncio ante o que está em curso em nosso país e não gratificaríamos o mal com a nossa omissão.

Eu lembro do réveillon do ano 2000 que tive a graça de viver aos 56 aninhos recém-feitos. Quanta esperança naquela ruidosa noite em que se misturavam os fogos de artifício, os sinos, as músicas da TV ligada, as palavras amorosas que trocávamos e as orações com que agradecíamos tantas e tão imerecidas graças. Sim, um novo milênio, inteiro, para o que desse e para quem viesse.

Se alguém lhe dissesse naquela noite, caro leitor, que no correr do quarto de século seguinte, o PT venceria cinco das seis eleições presidenciais que seriam disputadas, qual teria sido sua reação? Você teria imaginado a ruina institucional e moral a que chegamos? Teria previsto que nosso povo se habituaria, em modo cubano, à censura e à autocensura e que a isso acrescentaria os institutos dos sigilos por todo o século, dos segredos e dos respectivos vazamentos seletivos?

Quando iniciarem os sons do ano novo, lembre-se de que você é infinitamente mais amado por Deus do que a estátua tão zelosamente trabalhada pelo escultor medieval; lembre-se de que o ruído que ouvir é o dos alarmes, indicando os perigos que rondarão a política e as eleições de outubro. Faça, também nisso, o melhor de si. 

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.


Dalila Maria Cadete -   07/01/2026 22:51:23

Vasculhei, tentei, e não encontrei uma palavra que pudesse definir a magnitude de seu artigo. Brilhante, excelente como sempre. Feliz Ano Novo, digníssimo Professor Percival Puggina! Que Deus nos proteja.

ROELOF RABBERS JUNIOR -   06/01/2026 13:15:13

Só o texto é maravilhoso! Excelente interpretação, show!

Danubio Edon Franco -   05/01/2026 14:45:29

Como de hábito, um excelente artigo. Se bem entendi , detectei um lamento de tristeza e desânimo diante do nosso silêncio e omissão frente ao arbítrio, disfarçado na retórica jurídica do "Sistema", diariamente praticado em nome da "defesa das instituições democráticas." A grande imprensa, agora, clama pelo seu fim, dizendo sem rodeios que é momento do "Sistema" retornar aos seu limites. Nunca antes se viu tantos segredos; até despesas pessoais são alvo de mistério. E nós vamos engolindo tudo isso. Espero que nas próximas eleições o eleitor brasileiro entenda o que está acontecendo em nosso país, apesar da decepação que foi a última. Ainda assim, não podemos desistir.

Menelau Santos -   04/01/2026 20:15:21

Prezado Professor, Feliz ano novo! Vivemos um tempo sem heróis. É como se Gotham City não tivesse mais o Batman, O Dick Vigarista vencesse todas as corridas, Popeye não encontrasse mais seu espinafre, Super Homem estivesse eternamente sob o efeito da Criptonita, Robô Gigante estivesse enferrujado e o monstro derrotasse o Ultramen. A cena mais patética que eu assisti nestes últimos dias foi o semblante de médicos renomados visivelmente amedrontados ante a ordem do Xandão para que dessem alta ao Presidente no dia determinado por Ele (sic). Pobre o país que precisa de heróis...que nada, pobre o país que não os tem.

Enilda Dias Ferreira -   31/12/2025 17:46:10

Com orgulho e coragem, leio sempre os teus textos, amigo. Pq sabes escrever as verdades nas entrelinhas . Boa Saúde e Muita Esperança para todos nós, bom amigo e grande escritor Pugggina!

Odilon Rocha -   31/12/2025 16:32:15

Caro Professor Puggina Excelente artigo sobre a nossa triste situação. Isso é LUCIDEZ. A grande massa está em estado de catalepsia. Infelizmente ou com muita dificuldade sairemos desse lido. Deixo aqui uma prece portuguesa, que não muda nada, mas talvez amenize o momento: Existe uma antiga prece portuguesa que diz: "E o que tu queres que o próximo ano te traga?" Nada, não quero que me traga nada. A única coisa que quero é que não leve. Que não leve o teto que me protege. O prato que me alimenta. A manta que me aquece. A luz que me ilumina. O sorriso dos meus amados. A saúde como um tesouro. O trabalho como sustento. A amizade, a companhia, os abraços e os beijos. Que não leve os sonhos, nem os pedaços dos corações, formados por pessoas que carrego dentro de mim. Que no ano novo as palavras despretensiosas desta singela prece portuguesa escrevam a nossa vida. Um forte abraço!