Percival Puggina
Quem quisesse saber como se sentem os cidadãos de uma nação que perdeu o senso de justiça, a noção de certo, errado, limites, ética e compostura, agora já sabe. Quem tem juízo, olha a realidade e observa os personagens que nos pretenderam lecionar sobre vida civilizada. Ouviu que “empurravam a História” ... Sentiu os trambolhões e os maus jeitos de uma Justiça com inusitadas estratégias políticas, praticando excessos e fazendo vítimas.
Há uma parcela demograficamente ponderável do povo brasileiro que consegue conviver com escândalos sucessivos; com revelações de mesadas que, se repartidas por cabeça, fariam felizes populações inteiras de vários municípios brasileiros; com o arrogante controle da política por quem não tem voto; com o desrespeitoso silêncio de quem tem explicações a dar; com argumentos falaciosos que nem jeito de argumentos têm; com os constrangimentos internacionais pelos quais o Brasil vem passando; com a obsessão do Executivo e do Judiciário em controlar a liberdade de expressão. É o produto de cinco mandatos presidenciais petistas e de políticas sociais viciantes. Deliberadamente, criam dependência e escravizam enquanto a ação do governo se restringe a distribuir dinheiro ou bens de consumo, ou crédito, para suprir demandas de dezenas de milhões que não trabalham.
Sinceramente, conheço pouquíssimos eleitores que correspondam a essas descrições. Os eleitores de esquerda que conheço são cidadãos com causas, embora não entenda como conciliam tais causas com a atuação dos governos que elegem. Preferem qualquer desastre nacional a um governo de direita.
Contudo, não foram os dois grandes grupos mencionados nos parágrafos anteriores – os dependentes e os militantes – que deram a Lula o mandato presidencial obtido em 2022. Não é a esses grupos de lulistas fieis que Lula deveria agradecer a presidência da República, mas aos mais de 30 milhões de eleitores que se deram ao luxo de ficar em casa nos dias da eleição. Decisiva omissão! Numa disputa que contou 60 milhões de votos para Lula e 58 milhões para Bolsonaro, a leviandade dos 30 milhões de ausentes entregou o Brasil em mãos que, de modo compulsivo, destroem tudo em que tocam!
Eu sei, muitos leitores destas linhas podem estar pensando nas “excepcionalidades” que viraram rotina na arbitragem da campanha eleitoral de 2022, na criminalização da direita, que nunca mais saiu do vocabulário dos tribunais superiores, na censura, nas palavras proibidas e na pressão sobre as plataformas. Nada disso, porém, superaria a presença de uma parcela, pequena que fosse, daquele tipo de cidadão que ficou em casa por razões do tamanho de sua casca de noz mental. Esse tipo de pessoa, tão autossuficiente que se permite dispensar a política, só pode situar-se ideologicamente do centro para a direita. A esquerda ou é dependente do Estado ou é militante. Eleitor da esquerda não se ausenta de eleição.
Se você passar uma lupa no que tem sido expresso pelo lado direito em conversas de rua ou nas redes como opinião vulgar, popular, perceberá impressões digitais, pegadas e farelos mentais da mesma convicção e da mesma atitude em relação ao pleito deste ano. A omissão dos milhões de cidadãos do sofá, povo da bolha, volta a ser esperança maior da esquerda e de Lula para a eleição deste ano. Não façam isso com o Brasil!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Everton Marc - 19/02/2026 18:18:38
Prezado Puggina. Mais um excelente artigo sobre a politica brasileira. Esta afirmação que atribui "aos mais de 30 milhões de eleitores que se deram ao luxo de ficar em casa nos dias da eleição" é absolutamente correta.Maria Nunes - 16/02/2026 08:00:36
Caro Puggina,bom dia A direita perde porque se omite,em Portugal,p.ex. houve mais 40%de abstenção, então vemos o socialismo se perpetuar por lá AbraçosAfonso Pires Faria - 15/02/2026 08:57:17
Muito pertinente trazer a tona o assunto das abstenções. Dos que não votaram, possivelmente 80% seriam votantes do Bolsonaro. A esquerda é ferrenha. Beira ao fanatismo o ser engajamento. Parabéns.