• Percival Puggina
  • 01/08/2022
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Sérgio Moro: pânico a bordo e carga ao mar.

 

Percival Puggina

 

         Sérgio Moro é um caso para estudo em Ciência Política e Comunicação Social. Como juiz, trabalhou muito, chegou ao estrelato e se tornou celebridade mundial credora de reverências. Precisou bem menos para ele próprio jogar isso fora numa operação tipo “carga ao mar” usada por navios em situações de pânico a bordo. Seus erros são um mostruário do que não se deve fazer em política.

Errou como magistrado ao desistir da carreira em que se consagrou para ser ministro do governo Bolsonaro sem ter afinidade com ele.

Errou ao crer que disporia, no ministério, da mesma autonomia que tinha em seu gabinete de magistrado. A vida, neste governo, não é assim. Antes, os ministérios funcionavam em modo “porteira fechada”, operando ali um patronato compartilhado entre o ministro e seu partido. Todos sabemos aonde tal prática levou.

Errou muitas vezes na relação com o presidente, modificando seus projetos e desconhecendo suas promessas de campanha e seu perfil conservador. No governo, se revelou um socialdemocrata e quis impor essa orientação ao Ministério da Justiça. Foi assim que perdeu a ambicionada cadeira no STF.

Errou ao “sair atirando” quando deixou o ministério, evidenciando mágoa, sentimento nocivo, mormente quando tornado público. “Never complain!” (Nunca queixar-se!) é parte de conhecido aforismo de Benjamim Disraeli, que foi por duas vezes primeiro ministro do Reino Unido na segunda metade do século XIX.

Errou ao aceitar convite para trabalhar numa empresa norte-americana que tem a Odebrecht em seu portfólio de clientes ativos.

Errou ao não defender seu trabalho na Lava Jato com o vigor que a situação exigia quando este se tornou objeto de intriga e maledicência no STF.

Errou ao avaliar suas condições para disputar a presidência na condição de 3ª via quando era o menos indicado para esse papel. Sabidamente, Moro tinha frontal antagonismo com os dois ponteiros da disputa, sendo-lhe impossível tirar, destes, os votos necessários para ultrapassá-los. Um pouco de sensibilidade política e de aritmética elementar teriam sido suficientes para evidenciar isso.

Errou ao se filiar ao Podemos, um partido socialdemocrata, dissidente do PSDB, sem avaliar sua receptividade pelos deputados federais da sigla, já comprometidos com candidaturas em suas alianças regionais. Filiou-se em novembro de 2021 e se desfiliou em abril de 2022.

Errou ao filiar-se ao União Brasil (PSL + DEM), onde encontrou o mesmo problema na ala PSL do novo partido, e se vê às voltas com o projeto pessoal de Luciano Bivar.

Errou ao postular uma candidatura ao Senado por São Paulo, quando não tinha como comprovar sua condição de eleitor residente no Estado, fato que o levou de volta ao Paraná onde busca ser candidato ao Senado. Ali, o que seria fácil, ficou difícil contra Álvaro Dias (Podemos) e Paulo Martins (PSD), candidato oficial do governador Ratinho Jr., politicamente muito forte no estado.

Na base de quase todos os erros cometidos a bordo, está o mau uso dos dois anos de que dispôs até chegar ao instante decisivo das convenções partidárias. Perdeu a oportunidade de se preparar para afastar de si a imagem de inexperiente, forasteiro na política, e orientar melhor suas decisões num cenário sem dúvida complexo.

Percival Puggina (77), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.


Badger Balbinot Vicari -   03/08/2022 18:30:01

Concordo com alguns pontos do artigo. Não todos. Mas não concordo, como alguns comentaristas sublinharam, que a carreira dele desmoronou. Acho que ainda respira, e acho que deve ser eleito senador agora em outubro, e daí haverá espaço (oito anos) para se reerguer e vir a ser protagonista.

roberto lima de almeida neves -   03/08/2022 14:56:00

Admirador do nosso Juiz, tenho que reconhecer os erros bem identificados e organizados pelo excelente Puggina. Uma pena que tenha se desviado do caminho que serviria melhor ao país, e continuaria a lhe render reconhecimento.

Eduardo Medeiros -   03/08/2022 14:04:09

Como sempre, claro e preciso

Romulo de Oliveira -   03/08/2022 11:38:37

Por Aguiaemrumo Romulo Sanches #Paratodosverem #Lulaladrãonacadeiajá #Abortoécrimehediondo #PresidenteBolsonaroreeleito20221turno PEGA A VISÃO PATRIOTAS #MOROSEXUALTRAÍRA POR NATUREZA ALMA SEBOSA NÃO ENGANA NINGUÉM https://www.puggina.org/artigo/sergio-moro:-panico-a-bordo-e-carga-ao-mar__17627

NELSON SANT ANNA FERREIRA DE AZAMBUJA -   03/08/2022 11:38:12

As atitudes de Sérgio Moro, desde a sua primeira decisão de abandonar a magistratura para entrar na carreira política, me lembraram muito a história antiga do sapateiro que passou em frente a uma galeria de arte e resolveu tecer os seus comentários. A moral da antiga história: "Não deve o sapateiro ir além da chinela!" Política não é para qualquer um, mormente a brasileira!

Rodrigo Silva Jardim -   03/08/2022 11:24:22

Prezado Sr. Percival Puggina o candidato Moro é só mais um aventureiro em busca de poder. O Brasil não é para neófitos! Abraço

Danubio Edon Franco -   03/08/2022 10:45:21

Rigorosamente correto o artigo. Em verdade, Sérgio Mouro revelou o lado oculto de seu caráter quando saiu do Ministério da Justiça e revelou-se fraco quando silenciou diante das manobras jurídicas do STF. O resto é consequência. Mais uma vez Bolsoro acertou na mosca quando perguntado a respeito respondeu: “Ele queimou a largada”.

Luiz Gonzaga Galvão -   03/08/2022 10:40:23

Caros,Sérgio Moro,por falta de habilidade politica,humildade,planejamento,visão de futuro e desconhecimento do contexto politico brasileiro,sofre hoje as consequências de tudo isso e encontra-se desnorteado. Parabéns,Professor Puggina pelos Textos e Comentários.Abraço.

Ajacio Brandão -   03/08/2022 10:29:40

Excelente análise, como costumeiro. Muito obrigado

Maria Apreciada Novaes Theodoro -   02/08/2022 23:30:42

Perfeito comentário! Infelizmente Sérgio" desMOROnou'

Juçara -   02/08/2022 18:19:44

Como sempre professor fostes cirúrgico...adoro ler e fazer uma análise dos seus textos.

CARLOS SOARES DE MORAES -   02/08/2022 13:07:39

Concordo com o leitor Douglas. Muito estranho.

Leão -   02/08/2022 12:23:01

Ótimo comentário e arrisca ser colega de Lularapio nesta aliança. Tais "conselhos politicos" só podem vir da mente gulosa de sua mulher.

Aloysio -   01/08/2022 21:28:06

Belíssimo descritivo de uma carreira perdida. Dignino de dó. Pena.

Rogério Costa -   01/08/2022 20:41:26

Sérgio DesMOROnou.

Hercilia Rosa de jesus -   01/08/2022 20:31:31

Que sirva de exemplo para todos nós, Moro era excelente juiz, condenou o maior ladrão, mas na politica não sabia nada e Não teve humildade para aprender, e agora coitado jogou tudo no lixo.

wilson luiz maccagnan -   01/08/2022 16:09:54

Errou em ser comprovadamente um traidor em tudo, até mesmo do seu bom trabalho frente a Lava jato. Foi pro limbo da história

Menelau Santos -   01/08/2022 15:58:32

Muito interessante essa "time-line" que o Sr. desenhou Professor. Tenho simpatia pelo juiz Moro pelos seus feitos na Lava-Jato, mas atirar no Presidente, para mim, foi o pior dos pecados.

Maria Alix Dionello -   01/08/2022 15:01:15

Moro perdeu todas as oportunidades para se tornar um político com futuro promissor… ou foi inábil, com excesso de autoconfiança ou egocêntrico achando que todos os rios correriam não sua direção.

Douglas -   01/08/2022 14:16:19

Perfeita análise! Só acrescentaria de que Sr. Moro não julgou nenhum dos envolvidos, que eram afilados do PSDB , no seu período como juiz.

Guilherme -   01/08/2022 14:06:18

Muito bem analisado.

José Maria da Silveira Gomes -   01/08/2022 13:24:07

Parabéns Prof Puginna. Como sempre inteligente em suas análises. Cirúrgico!