• Percival Puggina
  • 23/04/2021
  • Compartilhe:

O ANIVERSARIANTE

Percival Puggina

 

Eu, porém, me sinto herdeiro dessa fé, dessa história e dessa cultura. Louvo, com Camões, “o peito ilustre lusitano, a quem Netuno e Marte obedeceram”. Por isso, discretamente, no retiro de minha casa, nesta noite de outono, brindo o aniversário de minha amada e mal tratada Terra de Santa Cruz.

Há muitos anos assisti a um filme em que o personagem principal entrou numa confeitaria e encomendou um bolo de aniversário, bem enfeitado, que contivesse a frase “Feliz Aniversário”. No final do expediente, retirou o bolo, levou para casa, ajeitou-o metodicamente sobre a mesa e sentou-se para comemorar consigo mesmo.

Essa representação cênica de solidão e esquecimento me vem à mente quando cai a noite sobre este 22 de abril e a data passa longe dos registros e celebrações. Ontem fizemos feriado no separatismo mineiro representado pela execução de Tiradentes e, hoje, esquecemos do Descobrimento, malgrado seu belo registro oficial na Carta de Caminha.

O 22 de abril de 1500 representa, na História Universal, o ponto culminante de uma das mais significativas aventuras humanas. O Descobrimento do Brasil foi o mais bem sucedido empreendimento ultramarino português, a longa epopeia dos lusíadas, iniciada por Dom João I com a conquista de Ceuta em 1415.

Na gravação para a série “A última Cruzada” produzida pelo Brasil Paralelo, afirmei que as Grandes Navegações, no início do século XV, como aventura e ousadia, superam as viagens que ficaram conhecidas como a “Conquista do Espaço”. Estas, note-se, não envolviam superstições, contavam com excelente informação, base tecnológica e, salvo acidentalmente, não produziram vítimas. Viagens espaciais não justificam versos como os que Fernando Pessoa dirige ao mar salgado lembrando o pranto das famílias enlutadas: “Quanto de teu sal são lágrimas de Portugal!”.

A propaganda esquerdista, porém, intoxicou o Descobrimento. Desvirtuou os feitos portugueses como condição para a velha estratégia de suscitar sentimento de culpa, gerar dívidas e produzir forças antagônicas em ausência das quais se asfixia. Parece não haver mérito em o pequenino Portugal haver descoberto, povoado, protegido e defendido este imenso continente brasileiro contra cobiçosas invasões francesas, inglesas e holandesas.

A ocupação dita extrativista e aventureira da descoberta era chamada povoamento nos textos portugueses. Tratava-se de povoar um continente e os portugueses foram ativos nessa tarefa, originando um fenótipo que hoje corresponde a 33% da população brasileira.

Contudo, os descobridores desrespeitaram condições essenciais para que esse quase inacreditável feito merecesse reconhecimento dos lixeiros da história. D. João III e seus sucessores não eram comunistas. As caravelas portuguesas não traziam a bordo sociólogos, antropólogos, assistentes sociais, ambientalistas e psicólogos. Os donatários das capitanias hereditárias não eram sem-terra. Não duvido de que até as posteriores senzalas seriam bem-vistas se se chamassem gulags.

A ideologização da história do Brasil, toda ela concebida segundo uma teoria dita “crítica”, acabou por comprometer o amor à Pátria no coração de muitos brasileiros. Mesmo entre os católicos não falta quem considere o Descobrimento e a subsequente obra de evangelização como o assassinato de uma cultura. E isso persiste mesmo depois de o Papa haver canonizado o padre José de Anchieta por haver exercido com sabedoria e discernimento seu sacerdócio entre os nativos.

Eu, porém, me sinto herdeiro dessa fé, dessa história e dessa cultura. Louvo, como Camões, “o peito ilustre lusitano, a quem Netuno e Marte obedeceram”. Por isso, discretamente, no retiro de minha casa, nesta noite de outono, brindo o aniversário de minha amada e mal tratada Terra de Santa Cruz.

* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

 

 


EDISON FARAH -   01/05/2021 14:14:17

Bravo Mestre Percival. Se temos que lembrar aos brasileiros este dia, quando as instituições nacionais o ignoram, é lamentável. Se não reformularmos todo o processo educacional desta terra não haverá futuro para o Brasil. Jamais seremos a almejada Nação dos nossos sonhos.

Leda Cruz -   26/04/2021 17:15:54

Meu coração também queima de amor por esta Terra de Santa Cruz, e herdeira grata dos desbravadores e heróicos lusitanos.

Decio Antônio Damin d -   26/04/2021 10:36:18

Muito bem lembrado o aniversario do Brasil....! Saudações! Lembro que em 21 do mesmo mes se comemora o aniversário da morte de Tiradentes, nosso maior herói que contestava a "derrama"que a Coroa Portuguesa nos impunha! Todos aprkveitaram o feriado e na maior parte da imprensa nada se falou dele que sequer foi citado! Agora o governo quer uma nova derrama (CPMF e etc) e eu lembr com saudade de Joaquim José da Silva Xavier! !!

João Medeiros Neto -   26/04/2021 09:14:56

Puggina como sempre. Magistral! É confortante a leitura diária dia seus textos. Deus o guarde e o ilumine para que continue nos confortando ao longo de muitos anos.

Jorge Paulo Cerva -   25/04/2021 19:03:47

Parabéns senhor Percival Puggina. Mais um extraordinário texto. Sempre me pergunto a cada ano porque não comemoramos dignamente este aniversário. Feliz aniversário, Amado Brasil. Abraços.

Ivaldo de Holanda Cunha -   24/04/2021 11:21:58

Tinha conhecimento do nome Puggina pelas redes sociais, mas não sabia ser ele um escritor dessa categoria. Espetacular posso dizer e repetir, espetacular. Quero ler todos os livros desse gaúcho. Preciso ler na minha também velhice, já que o Puggina também tem 76 anos como eu.

FERNANDO A O PRIETO -   24/04/2021 05:37:06

Ótimo texto! Que sejam lembrados e honrados os portugueses, SEM o viés revisionista, que diz que quer "libertar" a humanidade, mas só consegue torná-la mais escravizada e mais desigual. Não podemos avaliar o passado remoto pelos padróes do presente (mesmo que etes padrões sejam adequados, o que, no caso presente, não são!).

Áurea Cassettari Câmara -   23/04/2021 23:21:01

Texto de puro amor à Pátria amada, Brasil! Oxalá tivéssemos muitos brasileiros desse "nipe"! Parabéns!

Enilda Ferreira -   23/04/2021 22:21:57

Parabéns para nós ,que AMAMOS o Brasil e nossa VERDADEIRA e Simples História . Fomos ,SIM,descobertos pelo "melhor povo viajante da última flor do Lácio,inculta e bela!" Nessa hora,digo no coração,bem baixinho: Deus é brasileiro como eu,sua filha. Boa noite.

Menelau Santos -   23/04/2021 21:21:41

Texto fantástico. Nada a acrescentar.

Marcelo Pinho Santos -   23/04/2021 19:51:49

Maravilhoso Mestre, o artigo diginifica o amor a pátria, sentimento nobre, da mais alta virtude politica,, vou passar aos meus filhos como leitura obrigatória, parabéns!

Arcy José De Almeida Dias -   23/04/2021 17:31:19

Com tantos leitores seus, e de tanta qualidade, sinto-me intimidado para comentários. Fico apenas no "Magnífico"

Paulo Romão Romão -   23/04/2021 17:30:14

Texto primoroso, verdadeiro e emocionante. Excelente, como sempre!

Denise Costa Meyer -   23/04/2021 16:52:46

Texto emocionante. Parabéns Sr. Percival Puggina. O senhor não comemorou sozinho. Estive junto. Um abraço Denise

VERA HELENA DE OLIVEIRA ALAMBERT -   23/04/2021 11:27:33

Texto tocante e significativo. Salve Terra de Santa Cruz! Eu também sinto no fundo do meu peito a fé e coragem de nossos ancestrais lusitanos dos quais muito me orgulho. Gratidão eterna por seus esforços e realizações das quais somos todos herdeiros.