Percival Puggina
O Brasil é um país grande, populoso e diversificado, num berço esplêndido. Ou seja, o Brasil é lento. Nossas tolices são mansas e nossos hábitos comandam nossas percepções. Até o futebol brasileiro perde agilidade; nossos craques passam mais tempo recuando a bola e pensando no que fazer do que fazendo. Regiões inteiras se acomodam até ao petismo estrutural – “As coisas, aqui, são assim”, explicam, quando perguntados sobre tão sinistra conformidade com o infortúnio. Não se espere deste canto do planeta qualquer manobra brusca, salto ágil, pirueta genial, compreensão abrupta de problemas e soluções institucionais.
Foi essa característica que tornou possível a gradual construção e adaptação social ao controle que a maioria dos ministros do STF passou a exercer sobre a política. Contra a opinião de um punhado de bravos, a maioria do Congresso, em quietude pastoril, submeteu-se ao esvaziamento das próprias prerrogativas, às decisões furiosas de quem pensa com o fígado, à hipertrofia do STF, a atrofia do Legislativo e ao absenteísmo de um governo eventual, mas turista em modo contínuo. A indignidade dos meios pelos quais se foi afirmando a submissão do parlamento a uma democracia ao jeito do Supremo só encontra expressão nas redes sociais e em umas poucas vozes no Congresso Nacional.
Uso a palavra governo para facilitar a compreensão. O Palácio do Planalto, sabemos todos, está formalmente ocupado por um grupo político cuja principal prova de existência é fornecida quando, alinhada sobre um palco, racha os dedos aplaudindo e rindo feliz com a cesta básica de tolices que Lula costuma fornecer.
Não, não estou exagerando nem depreciando o presidente. Foi ele que em meio à maior crise instalada nas relações internacionais do Brasil desde 1822 gravou um vídeo oferecendo jabuticabas a Donald Trump e reduzindo as dificuldades de nossa diplomacia às proporções de um jogo de truco. Semanas depois, quando o mundo todo agiu com pressa, disse que estava com a agenda lotada, sem tempo para conversar com o presidente americano. Essa miséria intelectual só poderia dar no que deu. Assim como muitos bispos medievais dormiam com a chave do portão da cidade embaixo do travesseiro, a economia dorme embaixo do travesseiro de Lula.
Só das combatidas redes sociais vem o necessário jornalismo, obediente ao irônico preceito de Millôr Fernandes, para quem “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”. Jornalismo só pode ser feito por quem não é cortesão, por quem não faz questão de ter acesso aos privilégios palacianos das Versalhes do poder.
Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Silvia Thorell - 06/10/2025 19:19:40
que análise perfeita...sempre e para sempre o gigante adormecidoEliana Jardim - 06/10/2025 16:26:05
Lamento muito o que está acontecendo em nosso País. Era previsível que a forma de escolha dos Ministros da Colenda Corte, na letra da Lei Maior, poderia desandar. De outra parte, muitos parlamentares visam o bem próprio e não o da população. Brasil é um barco à deriva, nas mãos de irresponsáveis.Menelau Santos - 06/10/2025 15:25:04
O povo hebreu escravisado no Egito esperou 400 anos para ter um Móises e Aarão com Deus e as pragas libertadoras. Nós somos mais afortunados, esperamos só 6 anos para aparecer um Eduardo Bolsonaro e um Paulo Figueiredo com Trump e as Magnistskys na bolsa. Da mesma forma que o Faraó, os ministros do STF duvidam da eficácia das pragas que vão se sucedendo. Mas se Deus quiser vamos atravessar o Mar Vermelho e estes últimos serão engolidos pelas águas da história.Solange Gomes - 06/10/2025 12:41:55
Mestre, sua lucidez é imprescindível para nossa saúde mental!IGNÁCIO J.A. MAHFUZ - 06/10/2025 09:59:04
GRANDE, CADA VEZ MAIOR, MESTRE PERCIVAL PUGGINA! Sempre lúcido, coerente e, importante, incisivo! Fraternal abraço, Ignácio J.A. Mahfuz,roberto lima de Almeida Neves - 06/10/2025 08:25:11
Brasil tem hora M....