Percival Puggina
Para mim é difícil – sabem? – abrir o jornal e ler a recentíssima pesquisa sobre a eleição presidencial. Com 95% de certeza, a instituição que a elaborou reforça constatações anteriores: cerca de metade do eleitorado brasileiro permanece desatenta à necessidade ingente, urgente, intransigente e diligente de resgatar o Brasil do bordel institucional por onde se perdeu na licenciosa noite dos tempos.
Algumas dessas pessoas eu as conheço bem. Debati com elas e sei que, com raríssimas exceções, acordam diariamente para a mistificação. Antes mesmo das redes sociais e dos “influenciadores digitais”, sua fonte era a “cartilha”, expressão aplicada no século passado a boletins partidários contendo orientação para o debate sobre os temas do momento político. Outras, urram e zurram no meio acadêmico quando alguém de seu desagrado vai usar a palavra. São zeladoras incondicionais do sistema parceiro que opera o poder de Estado. Há dezenas de milhões de cidadãos brasileiros vítimas dessa malícia. São ovelhas pastoreadas por lobos a que sequer reconhecem como lobos e aos quais seguem com a docilidade dos realmente inocentes.
Por fim, também votando pela continuidade do que temos aí, há outros muitos milhões, que já entenderam tudo. Sabem chamar o lobo de lobo e o pastor de pastor. Mas entregaram aos lobos sua liberdade e seus votos, sua dignidade e sua honra. Eles sabem dos presos políticos, eles ouviram minúcias sobre o buffet de interesses em torno dos quais são trocadas unhadas retóricas e puxões de cabelo dialéticos. Eles sabem de precedentes criados com os cotovelos, de inquéritos abertos sobre o quadríceps femoral (aquele conjunto de músculos da parte frontal da perna) e de preceitos constitucionais lidos com o tradutor digital das conveniências volúveis.
Mesmo cientes de tudo, eles não se importam! Não se importam com o calvário de Filipe Martins, com Alcides Hahn, doador de um Pix de 500 reais à caixinha de um ônibus que foi a Brasília no 8 de janeiro e virou “mega financiador” do episódio, condenado por cinco crimes a 14 anos de cadeia e multa milionária... Esses eleitores não se sentem ofendidos com o caso de Clezão, que morreu desatendido porque pessoas morrem nas cadeias – certo? Sabem da Débora do Batom, sabem dos refugiados que padecem em algum cativeiro menos indigno, pelo qual optaram por prezar a própria liberdade. E sabem que todos eles – todos eles! – são injustiçados, maltratados, ovos quebrados para que o poder se alimente de uma narrativa sem pé nem cabeça.
E querem manter isso aí? Optam pela mão do Estado, transformado em carrasco, não importa quantos sejam desumanizados para que isso aconteça? Votarei pelas vítimas, pelos ovos quebrados.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.