• Percival Puggina
  • 08/01/2026
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A Sexta República e a volta ao autoritarismo

 

Percival Puggina

         A história da república brasileira, sempre exposta à tentação autoritária, pode ser estudada em cinco períodos: Velha República (1891-1930), Era Vargas/Estado Novo, República da Constituição de 1946, Regime Militar de 1964 e a Nova República, nascida no fervor cívico causado pela redemocratização de 1985. A transição para um novo período de autoritarismo ainda não foi suficientemente registrada. No entanto, ela é efetiva e a estou denominando de Sexta República.

Nesse novo regime, além do autoritarismo, preponderam os poderes sem voto. Sua atividade passou a ser chamada “papel contramajoritário do STF”, com a instituição valendo-se de uma doutrina jurídica, o neoconstitucionalismo, para abrir portas ao próprio protagonismo na cena política.

A equação em que a maioria esquerdista do Supremo funciona como o X político e o neoconstitucionalismo como Y jurídico, é a goiabada e o queijo da Sexta República. Com  reforço nos eventos do 8 de janeiro, o novo regime avançou. Alargou suas prerrogativas e impôs, com mão pesada, ameaças, sanções e censuras; controlou a expressão das opiniões e desmantelou o sistema constitucional de freios e contrapesos. Hoje, todo mundo sabe quem manda e até quem lhe proporcionou integral apoio, interna e externamente já clama por autocontenção. O novo regime guarda semelhança meramente formal com uma verdadeira democracia. Nele, convicções ou princípios pessoais dos ministros do STF adquirem força constitucional e o Direito se confunde com a vontade de seus intérpretes, deixando de ser um limitador de todos os poderes. Péssimo isso.

Todos os dias, milhões de empreendedores, empregadores dos mais variados portes, homens e mulheres, beijam os filhos, saem de casa e vão à luta manter ativos seus negócios e suas empresas. Todos os dias, um número bem maior de trabalhadores e trabalhadoras, beijam os filhos e vão bater ponto em seus empregos onde conquistam, com o suor de seus rostos e a fadiga de seus corpos e mentes, o alimento que os sustentará. Todos os dias, milhões de crianças e jovens enchem as salas de aula do país cumprindo o roteiro de um processo de formação que os deveria habilitar a uma vida plena e produtiva.

Só que não. A nação faz sua parte, mas a coisa toda não está funcionando! Com a impertinência do não saber, uma Educação de péssima qualidade compromete as gerações futuras. O Estado gasta e tributa como se o produto nacional viesse de um saco sem fundo, anda em más companhias, perde posição no ranking das maiores economias e não se percebem melhoras no nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Quem veio ao Brasil para a COP 30 formou uma boa ideia disso que gritam os indicadores.

A culpa não é das empresas nem dos trabalhadores brasileiros. Salta aos olhos de todos que nossos males têm suas causas instaladas nos poderes de Estado e nos correspondentes aparelhos públicos. Se há uma “luta de classes” no Brasil ela se trava entre o “público” e o “privado”. E o privado está perdendo feio. Em meio à já longa tragédia cultural, educacional, moral, econômica e social do país, a Sexta República viu subir a régua dos escândalos. Milhão é troco.

Não quero encher este texto com dados depressivos. Para provar o que afirmo, basta-me um. Desde 1989, para medir a competitividade das principais economias mundiais, o International Institute of Management Development (IMD) afere um amplo conjunto de indicadores, em quatro grupos principais: Desempenho Econômico, Eficiência Governamental, Eficiência Empresarial, Infraestrutura. Em 2025, o IMD mediu esses indicadores em 69 países e o Brasil conseguiu apenas o 58º lugar. Se no conjunto nosso resultado é ruim, convém saber que no quesito “Eficiência Governamental” conquistamos o penúltimo lugar! Só ganhamos da ... Venezuela.

A soberania da Venezuela era a soberania do ditador capturado em Caracas, fraudador de eleição, bufão interlocutor de passarinho, narcoterrorista, criminoso internacional. A soberania desta Sexta República é a soberania de poderes sem voto. Acompanhada pelo silêncio que gosta de impor, já identificada até por quem, durante seis anos, aplaudiu seus excessos, em outubro vai para seu segundo encontro com as urnas. Na Nova República era diferente.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.


Gerhard Erich Boehme -   12/01/2026 08:18:47

Persival, tu fizeste boas perguntas e encaminhaste algumas respostas importantes. Eu vou mais além e aponto o nosso verdadeiro breakpoint – ou melhor, o nosso breakthrough histórico mal resolvido: o 15 de novembro de 1889, consolidado institucionalmente quase um século depois com a Constituição de 1988, fruto direto do arranjo político de 1985. Ali nasceu e se consolidou aquilo que hoje estrutura o funcionamento rea (realidade)l, e não imperial ou monárquico, do Estado brasileiro: um sistema fechado de poder, formado pela interação permanente entre políticos profissionais, altos burocratas e grupos econômicos organizados, que se protegem mutuamente, produzem normas em causa própria e operam com baixa transparência e mínima responsabilização pública. Esse arranjo não busca eficiência, mérito ou resultados. Ele busca preservação de poder, controle orçamentário e estabilidade corporativa. O resultado foi a substituição da boa gestão por captura institucional, da governança por loteamento, e da responsabilidade pública por blindagem sistêmica. Quase um século depois, esse modelo foi constitucionalizado, passando a permear o Estado, as leis e as estruturas decisórias — expulsando as melhores práticas administrativas, sufocando a inovação e transformando o serviço público em um mecanismo de autoproteção política. O problema do Brasil não é falta de recursos, nem de talentos. O problema é estrutural: um Estado organizado para servir a si mesmo, não à sociedade. E enquanto essa engrenagem continuar intocada, qualquer reforma será apenas cosmética. Desde 1889 temos uma disputa traumática pelo vácuo deixado pelo poder Moderador, desde a República da Espada até a Ditadura sobre o Judiciario da atualidade, só convivemos com regimes de exceção e longe do Estado de Direito e da defesa do princípio da subsidiariedade.

aparecido furlaneto -   10/01/2026 16:33:41

Regimes autoritários sempre terminam com auxílio de forças externas...sempre ...o primeiro terminou em 1945 com as forças que ganharam a guerra na Europa ..o segundo terminou com as forças conservadoras do Ronald Reagan que impôs novas regras econômicas ao mundo . 1980. ..o terceiro vai terminar com uma viagem da Delta Air com direito uma estadia rápida em um porta aviões..kkkkkkkkkkkk..

Diego Gomes -   10/01/2026 11:40:47

Desejo veementemente que a sexta república não se concretize. Apesar da realidade mostrar o contrário. Espero que nos futuros livros de o crédito do termo seja vossa.

Afonso Pires Faria -   09/01/2026 08:51:52

Certeiro como sempre. Fez-me ver que tivemos dois períodos de exceção na nossa República. A de Vargas e o regime militar. O primeiro mais forte, o segundo nem tanto. O normal seria que o próximo fosse ainda mais brando. Infelizmente, este é mais forte ainda do que o primeiro.

Carlos Alberto Moutinho -   08/01/2026 13:52:24

No Brasil do Avesso justiça é adereço 56ncx