Percival Puggina
Durante séculos, as peneiras foram utilizadas para separar o trigo do joio que o acompanhava nas colheitas. Bem mais recentemente, quando a política se tornou sensível ao consentimento das multidões, as velhas peneiras, agitadas em discurso, passaram a ser usadas para obscurecer o sol dos fatos.
Nestes casos, elas funcionam como uma espécie de último recurso, que como bem sabem os advogados, ainda é um recurso. Vá que cole. E muitas vezes cola mesmo, contando com a saliva dos discursos, a credulidade dos ingênuos, o companheirismo dos companheiros, o marketing dos marqueteiros e com aquele jornalismo que divulga a notícia sem sequer espiar os fatos, esses ofuscantes inoportunos, desde a janela da redação.
A semana foi marcada pela vigorosa incidência da luz solar dos feitos, fotos e fatos sobre as instituições nacionais. As 218 páginas do relatório da PF foram suficientes para fazer carne de sol dentro de um frigorífico. Já no horizonte, ele continuou incendiando o cenário quando o presidente do Senado Federal, interpelado, rotulou como anormal haver tantos pedidos de impeachment de ministros do STF. Para Alcolumbre, anormal era isso e não os eventos que motivaram tais arrazoados, nem sua obstinada decisão de não colocar em tramitação unzinho sequer dos 109 documentos de denúncia por crime de responsabilidade apresentados à Casa que, com sua fisionomia lenhosa, ele preside.
O sol ainda ardia no horizonte quando um fotógrafo abelhudo capturou a cena: finda a sessão do pleno do STF sem que o fato mais grave da história do Judiciário brasileiro fosse sequer mencionado – haja peneira! – quatro ministros, às gargalhadas, divertem-se com algo. Não importa o motivo, não era hora de piadas. A cena está menos para o Baile da Ilha Fiscal seis dias antes do golpe contra a Monarquia e mais para Nero dedilhando as cordas de sua cítara ante o incêndio de Roma, pois tampouco aquela era hora de lazer! Desconcerto inqualificável. Síntese perfeita de realidade deplorável.
Ao longo deste século, enquanto se ia consolidando a maioria de indicações petistas para vagas surgidas no Supremo Tribunal Federal, um pingo de discernimento permitia antever que o ativismo e a politização iriam corroer aquele organismo, levando junto a instituição. Isso integra a própria natureza da ideologia que se foi tornando dominante. É como as raízes que entrelaçam o joio ao trigo. Uma instituição, qualquer instituição, merece esse nome se, e enquanto tiver uma chancela de consentimento que vem do passado, concedida a algo virtuoso; se for reconhecida como parte do bem comum e anterior e superior à própria norma que a instituiu.
Para esclarecer melhor: a instituição não está às gargalhadas. Ela deplora e chora. Chora e deplora porque acreditou em leis que nascem da representação política, e assim, ao cumpri-las, o cidadão não reduz sua dignidade pois está obedecendo a si mesmo. Quando os órgãos que operam essas duas instituições se autodestroem ou corrompem, o cidadão vê crescer a própria responsabilidade em separar o trigo do joio na eleição que tem pela frente.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
João Ernani - 08/09/2026 06:42:07
Prezado Percival Puggina, parabéns pelo lúcido e contundente artigo. A metáfora da peneira, do trigo e do joio traduz com precisão o desafio de distinguir os fatos das narrativas que procuram obscurecê-los. Uma reflexão necessária sobre o papel das instituições e, sobretudo, sobre a responsabilidade do cidadão. Um abraço e meus cumprimentos!Ademar Pazzini - 07/09/2026 22:35:13
É bem assim, só nos resta acertar a mão na próxima eleição, único caminho para a depuração, uma vez que as quarteladas ficaram no Sec XX.Silvia - 07/09/2026 19:44:19
Sempre com muita elegância e cultura, o nosso jornalista preferido dá nome os bois. Parabéns, mais uma vez!juan Albornoz - 07/09/2026 13:31:53
Caro "amigo" Pugina. Nao se surprenda com o termo é o que eu gostaria, pero o usei para parecer cálido, assim como suas palavras as sentí na minha alma. Aos meus 84, estou com meus pés ja algo elevados da terra, o que me permite olhar a humanidade com certa benevolencia. Nossos congéneres mais jovens foram vítimas daquilo que nossa geracao nao conseguir enxergar direito ou, se a enxergou, foi omisa. Do patamar privilegiado desde onde olho o panorama, vejo que estamos no fim de uma era sinistra e, estamos no preambulo de novos tempos. O que estamos vivendo sao os últimos estertores da besta ferida de morte e, de nada adiantará o unguento alcolumbre, este também ja perdeu seu efeito nocivo, assim como Lula Vapor Up e tantos outros de precos mais económicos. Graca e Paz prara voce. JuanNELSON SANT ANNA FERREIRA DE AZAMBUJA - 07/09/2026 12:33:11
"... Desconcerto inqualificável. Síntese perfeita de realidade deplorável...." E com os protagonistas, o que acontece? Nada? Vão continuar às gargalhadas até se aposentarem incólumes ou morrerem?roberto lima de Almeida Neves - 07/09/2026 11:12:57
Mais uma excelente análise da nossa trágica decadência a partir de um tribunal dito superior onde alguns de seus juízes fazem contratos milionários com grupos, o último foi o Master, que formou uma quadrilha com cobertura jurídica indireta de "juizes" do Supremo.Douglas Albino Salgado - 07/09/2026 08:53:46
Parabéns Percival Puggina, te leio sempre que recebo os seus e-mails.Maria da Glória Fritsch Nunes - 07/09/2026 08:47:04
Caro Puggina, bom dia A esquerda conseguiu que as leis fossem relativas,filho de ministro e filho de presidente, dois baita senvergonhas,estão sendo super protegidos pela pequena corte e pelo chefe do executivo, enquanto bebês estão sendo mortos na barriga da mãe, porque a lei deles permite.os filhos destes figurões são mais importantes que um bebê inocente, completamente sem chance?Afonso Pires Faria - 06/09/2026 11:28:17
Parabéns, brilhante como sempre. E que o joio seja separado do trigo, incinerado, concretado e enterrado bem fundo.