• Adriano Alves-Marreiros
  • 02/04/2026
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Cantos de crime e desgraça: a realidade nas entrelinhas das músicas III...

 

Adriano Alves-Marreiros

– Ah, a música – disse Dumbledore, secando os olhos. – Uma mágica que transcende todas que fazemos aqui!

J.K. Rowling

      Prosseguimos com nossa série de artigos de inspiração na Música.  Se nas outras duas elogiei a qualidade da canção, nesta não posso fazer o mesmo, embora seja de um dos maiores compositores de todos os tempos, John Lennon: sim, nosso alvo será aquela que é a vaca sagrada de tantos militantes...

Sem dúvida, algumas das maiores canções de todos os tempos foram feitas por ele e Paul nos Beatles. Canções de amor como Woman e Starting over, já na carreira solo, são encantadoras.  Obras primas às dezenas podem ser mencionadas.  Mas esta, além de superestimada, tem significados ainda menos disfarçados que as outras.

Vamos então àquela que, junto com postes de led, pombas brancas, desarmamento das pessoas de bem e abraços em lagoas e praças, pode nos propiciar “um mundo melhor” ...

Imagine”: criando um mundo “melhor”, à imagem e semelhança do que pretenderam muitos ditadores...

Imagine there´s no heaven” (imagine que não haja o paraíso) é o verso que começa “despretensiosamente” a música que propõe um paraíso segundo a ideologia receita do autor. Ele também nos manda imaginar que não há inferno sob nós (“no hell below us”), o que é mais fácil; pois, criado o mundo ideal de Lennon, o inferno não estará mais sob: mas around us (à nossa volta), como já aconteceu na URSS e em outros lugares em que esse mundo ideal foi tentado seguindo a idéia ou ideologia de alguém. Seria o caso, então, de lembrar e não de imaginar... Mas, para que você não lembre, ele imediatamente quer todas as pessoas vivendo o presente (“living for today”), apenas o presente.  Esquecer o passado, ou recontá-lo, é muito importante para o “agente de transformação social” que é alguém como aquele alfaiate da piada atribuída ao Millôr que, vendo que o terno não serve, faz ajustes no cliente...

Ficando mais explícito, ele manda imaginar que não há países (“imagine there's no countries”) passando ao internacionalismo, objetivo de certas ideologias, e afirma que não seria difícil de imaginar isso (“It isn´t hard to do”), desta vez revelando até dons proféticos: quem poderia prever que nações ocidentais de imensa história, alta cultura e tradição, cederiam suas soberanias tão facilmente, deixando-se governar por burocratas não eleitos que, por vezes, impõem por tratados as mesmas regras que aqueles povos rejeitaram em referendos.  Quem iria imaginar que até a nação mais poderosa do mundo teria se curvado por quase uma década ao Globalismo[1].  Então, realmente, hoje podemos dizer: “It isn´t hard to do”.  Ainda mais se fizerem as pessoas imaginarem que realmente não há nada pelo qual matar ou morrer (“Nothing to kill or die for”) tornando-as fracas e submissas, tolamente pacifistas e esquecendo de episódios em que se lutou e se deu a vida pela Democracia, pela Liberdade, contra o totalitarismo, por princípios e para não deixarem invadir sua pátria (mas se não há países...).

Evidentemente que a religião manteria as pessoas pensando em valores pelos quais valeria a pena viver e morrer e manteria a cultura, que precisa ser destruída para facilitar a vinda da revolução; então, imagine que não (...) há religião, também (“Imagine there´s (...) no religion too”).  Com isso, o deus Lenin, digo, Lennon, ou qualquer outro, vai poder impor uma forma boa e pacífica de viver sem conflitos (“Living life in peace”): principalmente sem conflitos com esse deus... Sem que haja religiões para atrapalhar.

A ideologia agora se revela totalmente quando nosso caro John, cuja fortuna ao morrer atingia algumas dezenas de milhões de libras, nos manda imaginar que não existem propriedades (“Imagine no possessions”), desde que não notemos as dele (duplipensar[2]).  Essa precisa explicar?  Mas sobre o direito à propriedade privada, devo lembrar que é uma das garantias da liberdade e da dignidade da pessoa humana (Leia Mises, Locke e tantos outros).  Sem ele, não existe nenhum âmbito em que o governo não mande, mesmo que esse governo se disfarce de outras formas não (tão evidentemente) governamentais... Curiosamente, o autor sugere que a ausência de propriedade levaria à inexistência de fome e ganância (“No need for greed or hunger”).  Mas será que você viu mais abundância e fartura nos países que restringiram o direito à propriedade ou nos que o respeitam: indaguem...  Impedem as pessoas de saírem de quais?  Para quais elas querem ir? Lembro de uma “fraternidade dos homens” (“a brotherhood of men”), por exemplo, que fez milhões morrerem de fome no Holodomor porque acharam que os ucranianos não eram fraternos como eles queriam[3]...

No refrão Lennon profetiza mais uma vez e diz que tem esperança de que um dia você se unirá a sonhadores como ele ( “I hope someday you'll join us”) e realmente o politicamente correto, o domínio da imprensa, da academia, a manipulação da arte fizeram com que muitas pessoas sejam “modinhas”, isto é, seguidoras de toda moda politicamente correta da vez, sentindo-se constrangidas pela Espiral do Silêncio[4] que direciona o que você deve pensar para não se sentir deslocado e que muitas vezes já foi um tema mal visto que foi tornado bem visto e inquestionável por meio da janela de Overton[5] (procure saber mais sobre o assunto: você vai entender muita coisa). 

E quando houver modinhas suficientes para que a revolução vença, por meio do Globalismo[6], então “the world will be just one” (o mundo será um só): e você terá a liberdade de fazer aquilo que a oligarquia não eleita determinar... como já anda acontecendo aqui e ali...

O camarada Lenin nos ensinou que […] na guerra dos exércitos, não se pode atingir o objetivo estratégico, que é a destruição do inimigo e a ocupação de seu território, sem ter antes atingido uma série de objetivos táticos, visando a desagregar o inimigo antes de enfrentá-lo em campo aberto.“

Antonio Gramsci

Agora vou ouvir a música... (não, vou não: é chata pra caramba!)

 

*O autor é fã da música dos Beatles mas imagine se ele iria gostar desta...

 

[1] “O Globalismo é uma política internacionalista, implantada por burocratas, que vê o mundo inteiro como uma esfera propícia para sua influência política. O objetivo do globalismo é determinar, dirigir e controlar todas as relações entre os cidadãos de vários continentes por meio de intervenções e decretos autoritários.”, trecho do artigo publicado em < https://www.mises.org.br/article/2639/a-diferenca-basica-entre-globalismo-e-globalizacao-economica-um-e-o-oposto-do-outro > Leia mais em outras fontes.

[2] Conceito demonstrado por Orwell na obra 1984.

[3] Ah, mas foi um tirano e não a fraternidade... Sim! E você acha que essas “fraternidades de homens” não vão ser lideradas???

[4] Teoria sobre comunicação formulada por Elizabeth Noelle-Neuman em que“O resultado é um processo em espiral que incita os indivíduos a perceber as mudanças de opinião e a segui-las até que uma opinião se estabelece como atitude prevalecente, enquanto as outras opiniões são rejeitadas ou evitadas por todos, à exceção dos duros de espírito.  Nessa teoria o importante são as opiniões dominantes, e estas tendem a se refletir nos meios, a opinião individual passa por um processo de crivo do coletivo para ganhar a força.”.  Leia um resumo, contendo os trechos acima em < https://teoriasdacomunicacao2.wordpress.com/teoria-espiral-do-silencio/ > e aprofunde-se mais em outras fontes.

[5] “A Janela de Overton é uma teoria política que descreve como a percepção da opinião pública pode ser mudada de modo que ideias que antes eram consideradas absurdas sejam aceitas a longo prazo”, usando, em geral, 5 etapas: 1) do impensável ao radical 2)do radical ao aceitável 3) do aceitável ao sensato 4) do sensato ao popular 5) do popular ao político. Leia um resumo, contendo a o trecho acima, aqui : < https://amenteemaravilhosa.com.br/janela-de-overton/  > e aprofunde-se em outras fontes.