• Percival Puggina
  • 16/12/2020
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A DIFÍCIL EMPREGABILIDADE DOS JOVENS

 

         Há de parecer um contrassenso. Há algumas décadas, temia-se pela empregabilidade dos mais idosos. Dizia-se que eles seriam rapidamente superados e, muito provavelmente, substituídos pela juventude que se preparava para entrar no mercado de trabalho. Em reportagens sobre o assunto, li que indústrias japonesas tinham uma sala de estar e de convivência onde seus velhinhos podiam se sentir úteis, convidados a opinar perante certas situações específicas. Cortesias orientais para antigos ocupantes de um mundo que rejuvenescia. Não sei se tais locais ainda existem.

         A vida, porém, furou a bola de cristal, ao menos no Brasil. No país do futuro, o Estadão do dia 14 deste mês publicou matéria que merece ser lida, da qual extraí pequeno trecho:

“... Ou seja, de cada dez trabalhadores com até 24 anos de idade, quase oito trabalham em situação vulnerável, segundo levantamento da consultoria IDados. Em números absolutos, isso significa perto de 7,7 milhões de pessoas. Na faixa etária entre 25 e 64 anos, o porcentual é de 39,6% e, acima de 65 anos, de 27,4%.” O inteiro teor da matéria pode e deve ser lido aqui.

         A constatação não surpreende se recordarmos o minucioso relatório da UNESCO intitulado "Perfil dos professores brasileiros" (2004) – sem dúvida o mais alentado e minucioso que já li – constatou (tab. nº 55, pag. 108) que 72% dos nossos “trabalhadores em educação” assumiam como sua principal função "formar cidadãos conscientes". Apenas 9% priorizavam "proporcionar conhecimentos básicos" e não mais de 8% sublinhavam a importância de "formar para o trabalho". Noutro item da mesma pesquisa (tab. nº 64, pag. 127) 64,5% dos professores tinha consciência, em grau alto e muito alto, de exercer um "papel político". Infelizmente, não se requer nova investigação para saber que de lá para cá, ao longo dos últimos 16 anos, também nisso a situação só se agravou.

         É só lembrar: o aparelhamento e a ação política dos sindicatos da categoria; a partidarização das universidades públicas; a ocultação de autores conservadores e liberais; a orquestração depreciativa contra o projeto Escola Sem Partido; atos de formatura que se assiste por aí. Nada de estranhar num país que cultua Paulo Freire, que assume atitude religiosa perante a obra mais descaradamente política que já li sobre educação e continua a influir em tantos no comando da barra de giz ou do ponteiro lazer.

         O PISA de 2018, divulgado em dezembro de 2019, continha apenas uma notícia boa para o Brasil: a convicção de que assim como está não dá para continuar. Lembre-se, porém, que, em nosso país, tudo precisa mudar, contanto que, para cada um, tudo fique como está.  Resultado: num rol de 79 países, conseguimos as posições entre 58º e 60º em leitura, entre 66º e 68º em ciências e entre 72º e 74º em matemática. A variação decorre da margem de erro adotada pela pesquisa.

O resultado dessas posições de vanguarda, da formação de jovens de pouco estudo e nenhum livro, entregues a seus “criativos e não reprimidos impulsos”, está custando muito caro àqueles em quem se investiu de modo tão equivocado. Outro dia, deu-me dó de uma atendente de caixa quando a vi, disfarçadamente, contando nos dedos para calcular um troco de R$ 12 reais. Sem sucesso, apelou para a calculadora.

Sempre que alguém se apresentar como trabalhador em educação, lhe falar em educação para a cidadania, se disser freireano, saia correndo, chame a mulher e as crianças e grite por socorro, SOS, Mayday, salve-se quem puder! Em seguida seus filhos estariam falando em alternativos, fascistas, neoliberais, negacionistas, golpistas, excluídos, oprimidos, bem como em utopia, problematizar e por aí afora.

 

 

* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.

 


DONIZETE DUARTE DA SILVA -   21/12/2020 18:20:13

Antes gostaria de falar o seguinte: Existe uma diferença substancial entre indústria e fábrica. Uma indústria é um negócio conduzido por pessoas mirando o futuro, enquanto que uma fábrica é um equipamento operado por pessoas mirando o passado. No ramo financeiro, um banco é uma indústria enquanto que uma agência uma fábrica. No passado a prospecção de capital dependia das agências bancárias que promoviam o necessário networking, quem precisa disso hoje em dia, é só verificar quantas agências têm sido extintas por todos os bancos. No caso da indústria de transformação ocorre a mesma coisa,e com a manufatura aditiva será pior ainda. As fábricas concorrem em nível planetário, de sorte que as margens são e serão sempre casa vez menores. Uma indústria transforma ideias em oportunidades, enquanto que uma fábrica tempo em riqueza. Assim sendo uma fábrica contrata experiência porque não tem tempo para perder educando, indústrias contratam talentos. No MEC, nos anos 70, propalava-se que o Brasil não precisava de pensadores, bastavam operários. Hoje às fábricas estão morrendo e insistimos em operarializar os brasileiros, nossos filhos e netos. Se as fábricas estão morrendo e formamos apenas jardineiros e não paisagistas, quem hoje e amanhã não encontrará o tão sonhado emprego, os experientes ou os jovens? Fui confuso?

Menelau Santos -   17/12/2020 15:04:24

Olá Professor Puggina, gostaria de nesse dia especial parabenizá-lo pelo seu aniversário. Que Deus continue a lhe iluminar para que o Sr. nos brinde por muitos anos com esses maravilhosos e inspiradores artigos para que nós possamos sorver uma pequena parte desta belíssima sabedoria que lhe foi dada em dom por Deus. Muito obrigado Professor! Grande abraço, um Feliz Natal e um próspero 2021!

Jaime Luedke -   17/12/2020 10:31:56

Com professores considerando atualmente que antes de ensinar as matérias aos alunos devem doutrina-los ou apenas mantê-los ocupados durante o período escolar(isso eu ouvi de uma professora de matemática do fundamental) não é surpresa o quadro apresentado, pouca familiaridade com números e dificuldade em interpretar textos são problemas difíceis de contornar na busca de ocupações formais, um verdadeiro desastre para o País e para os jovens mas um resultado de acordo com a expectativa daqueles que usam a Educação como plataforma de formação de partidários de seu ideal político.

PERCIVAL PUGGINA -   17/12/2020 09:55:13

A exemplo do site antigo, todos estão convidados a opinar sobre meus artigos. Também os dois artigos anteriores, cujos comentários foram perdidos durante a transição, estão abertos à reiteração dos mesmos ou a novos comentários. Sejam muito bem-vindos.