Percival Puggina

Na véspera do Natal, matéria do UOL destacou: “Brasil tem mais mortes por covid em uma semana do que 63 países juntos na pandemia inteira”. Sim, e daí? Que países são esses? Qual sua população? Qual sua interação com o resto do mundo? Um rápido passeio pelo Google buscando informações sobre covid-19 divulgadas em nossa imprensa evidencia que os números são selecionados a dedo para criar uma sensação de que o Brasil enfrenta a covid-19 de um modo desastrado com resultados incomparavelmente trágicos.

Não seriam reprováveis, nem a ênfase, nem o tempo dedicado ao assunto, se o objetivo fosse suscitar na população um justificado zelo pela saúde e a adoção de medidas preventivas. Mas não. As redações militantes, os apresentadores opinativos e o recrutamento dos “peritos” têm por objetivo permanente (e não me digam que é apenas colateral) imputar responsabilidade ao presidente da República (exatamente aquele a quem o STF atribuiu apenas responsabilidade supletiva). Longas e repetitivas conversas são entretidas diante das câmeras para transmitir a ideia de que o presidente é o causador da mortandade. Não raro isso é dito com todas as letras e apontado como motivo para impeachment (aquele instrumento constitucional que antes era golpista).

O mesmo jornalismo que faz isso há quase um ano usando os óbitos da covid, em agosto de 2019 valeu-se do piche que começava a chegar no litoral do Nordeste para acusar o governo pela “falta de medidas preventivas e de proteção”. Como se fosse possível prever e prevenir a conduta criminosa de um petroleiro clandestino, muitos dias antes, a 100 km da nossa costa! Foram semanas com imagens desoladoras nas telas e depoimentos convenientemente pinçados a cada tartaruga envolta em gosma negra que aparecia diante das câmeras.  Malgrado o empenho da Marinha, do Ibama e o necessário apoio de milhares de voluntários, o responsável pela extensão do desastre era o presidente. Tinha que ser. Era politicamente necessário dizer isso. A banca canta o jogo e joga assim.

O que não se diz sobre o enfrentamento à covid-19, porque aí diminui a “culpa” do presidente, é que algo entre 17 e 21 outros países têm mais óbitos do que o Brasil por milhão de habitantes.  O vírus tem causado mais óbitos do que aqui em economias desenvolvidas, sociedades culturalmente avançadas e com fácil acesso a recursos tecnológicos e meios de ação, como Bélgica, Itália, Reino Unido, França, Estados Unidos. No entanto, afora os Estados Unidos e Brasil, não se diz que os culpados são seus governantes. Só brasileiros e norte-americanos morrem por culpa de seus presidentes... Arre!

Se é verdade que ambos, por vezes, e por temperamento, falam e agem antes de pensar, também é certo que parte significativa da grande imprensa só fala e canta o jogo pensado por sua banca.

  • Percival Puggina
  • 17 Janeiro 2021

 

Percival Puggina

 

Leio no Diário do Poder

A estratégia do marqueteiro João Doria não resistiu aos números finais da eficácia da Coronavac, 50,3%, um sopro acima do mínimo exigido e a anos-luz dos 98% alardeados pelo próprio governador de São Paulo em setembro.

O resultado final foi visto como real motivo para os inúmeros adiamentos no anúncio da taxa e para a demora no envio de dados dos estudos clínicos solicitados pela Anvisa para conceder uso emergencial. A informação é da Coluna Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

Há dias, os 78% já haviam sido considerados um fracasso e Dória sequer deu entrevista, outrora tão frequentes, em seu show do meio-dia.

Ao enfrentar a realidade de apenas 50% de eficácia, restou ao governo de SP a incrível boa vontade dos jornalistas para justificarem o fiasco.

Questionado sobre se manteria a compra de 100 milhões de doses do imunizante, o Ministério da Saúde optou por não responder.

COMENTO

A demora dos chineses e do Butantã em fornecer os dados de eficácia de sua vacina dispara vaias e aplausos.
Vaias à qualidade da vacina e a milimétrica distância que a separa daquela condição de “sem comprovação científica sobre sua utilidade” tão usada em relação a alguns protocolos de tratamento precoce. Aplausos à Anvisa, que conquistou ainda maior credibilidade por  manter seus padrões técnicos longe das cornetas da mídia militante.

Claro que uma vacina com 50% de eficácia é melhor do que o “toma uma aspirina, vai para casa e espera a falta de ar”, mas convenhamos que não vale 1% do marketing investido por João Dória que pensou chegar à presidência tomando injeção.  

  • Percival Puggina
  • 13 Janeiro 2021

 

Percival Puggina

Aos 75 anos, Lula voltou a Cuba. Desta feita, em lua de mel e para participar de documentário produzido pelo diretor Oliver Stone. Assim, sem nenhum adendo, a viagem foi levada ao conhecimento da opinião pública. Portanto, segundo o noticiado, Lula não foi abraçar nem reafirmar seus votos – estes, sim, eternos e promissores – à revolução e seus líderes. Por outro lado, conforme sugere um leitor, não terá ele ido Cuba fazer política, usando a entrevista para esse fim, sendo a lua de mel mero efeito colateral?

         É incrível que nenhuma grande empresa de comunicação, brasileira ou norte-americana, tenha manifestado curiosidade e tomado a iniciativa de enviar um correspondente para cobrir eventuais atividades políticas de Lula em Cuba. Nem mesmo o nome do hotel onde está hospedado chegou ao conhecimento do público brasileiro, não por acaso, pagador parcial ou total dos requintados passadio e albergaria.

         As últimas notícias sobre a viagem de Lula, sem qualquer acréscimo ou supressão, são idênticas às de duas semanas passadas e as mesmas do período anterior à viagem.

                  Diante de tamanho vazio, meu leitor pergunta, não sem razão: “Sendo Lula, juntamente com Fidel Castro, criador do Foro de São Paulo, é descabido supor que a viagem e a ausência da mídia internacional seja oportunidade para confabulações da esquerda revolucionária nele congregada? Não estarão em Havana, coincidentemente, nestes mesmos dias, algumas canetas robustas da Nova Ordem Mundial?”.

         Não é impróprio perguntar, então, se tal silêncio não é, por si só, uma notícia importante.

  • Percival Puggina
  • 07 Janeiro 2021

 

 

O ministro Luiz Fux é o presidente do Supremo, aquele tribunal onde todos são “supremos”. Imagine o grau de “supremacia” que representa presidi-la. 

Quando li que o STF havia solicitado reserva de sete mil doses de vacinas para atender os tribunais superiores, fiquei aguardando as reações, mais ou menos como quem vê o clarão e fica esperando o trovão. E o trovão veio, com o justo clamor do povo. O ministro tentou justificar a solicitação recusada pela Anvisa (meu apreço por essa agência aumenta a cada dia) alegando a importância dos serviços prestados e haver muitos servidores cuja “maturidade” representava riscos adicionais, blá, blá, blá. Entendi, realmente assim. Conversa fiada para explicar o inexplicável.

Naquela situação, a Anvisa demonstrou mais senso de justiça que o STF. E isso não me surpreendeu. Se a conduta do tribunal e a justificativa me desagradaram, mais ainda me desagradou a sequência dos acontecimentos, quando soube que o presidente do STF havia exonerado de suas funções o médico autor da solicitação original assinada e expedida pelo Diretor-Geral do STF. Ao explicar o ato, o ministro deu por esquecido o que dissera antes e afirmou que o pedido feito à Anvisa era uma “falta de noção”.

Aí me lembrei do meu cinto. Eu tenho um cinto que ganhei do meu neto. Tanto pode ser azul ou marrom, conforme se gire a fivela.

  • Percival Puggina
  • 01 Janeiro 2021

 

 

Li em O Globo (23/12)

BRASÍIA - O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, defendeu o pedido feito pela Corte à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para reservar 7 mil doses da vacina contra a Covid-19. A reserva de vacinas não está prevista no plano nacional de imunização (PNI) contra a doença divulgada pelo Ministério da Saúde na semana passada. Mas, segundo Fux, o pedido feito pelo STF seria atendido apenas dentro das possibilidades e depois da imunização dos grupos prioritários.

O ofício do STF foi enviado no dia 30 de novembro e é assinado pelo diretor-geral do STF, Edmundo Veras dos Santos Filho. O documento não pede que as vacinas sejam encaminhadas de forma antecipada ao STF e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que também é presidido por Fux. Mas, se a reserva fosse acatada, isso poderia permitir que pessoas que não estão nos grupos considerados prioritários segundo o Ministério da Saúde teriam acesso à vacina antes do restante da população em geral. O Superior Tribunal  de Justiça (STJ) também fez um pedido semelhante. A Fiocruz já negou ambas as solicitações e informou que a produção é destinada "integralmente" ao Ministério da Saúde.

COMENTO

            Isso é o Supremo, sendo o mesmo, “se achando” e crendo que até a saúde da Corte deve ser prioridade nacional. No pedido da reserva de 7 mil doses da vacina, o Diretor Geral do Tribunal, explica que com o STF assumindo essa vacinação de seu pessoal, o sistema público de saúde seria aliviado dessa responsabilidade, preservando-se o sistema público para cuidar  inteiramente do restante da população. E acrescenta haver na instituição pessoas que compõem os grupos de risco. Desnecessário lembrar que nenhum dos ministros tem 75 anos (aposentam-se ao completar essa idade) e não integram, portanto, a ordem de prioridades determinada pelo Ministério da Saúde...

Que coisa horrorosa! Isso é um selfie do STF enviado à nação e agora exigindo do presidente Fux malabarismos retóricos para explicar porque a foto saiu tão ruim.

            Parabéns à Fiocruz – aplausos de pé, por favor! – que teve a inusitada bravura de dizer – Não! – ao Supremo Tribunal Federal, informando-o de que as vacinas seriam entregues integralmente ao Ministério da Saúde.  A Fundação Oswaldo Cruz completou, em maio, 120 anos de inestimáveis serviços à saúde da população brasileira.

  • Percival Puggina, com conteúdo O Globo
  • 26 Dezembro 2020

 

Nota do editor do site: A Corporação CIMEX S.A., estatal, opera uma infinidade de negócios e empreendimentos em Cuba. Inclusive ceias de Réveillon. Os preços e a suposta qualidade do cardápio escandalizam num país com desabastecimento e que acaba de desvalorizar sua moeda (CUC) da equivalência 1 por 1 para 1 por 24 

Leiam a notícia de Cubanet.

A foto ilustra evento análogo promovido em Havana, na Praça da Catedral. (Foto: CIMEX / Twitter)

A mesa para quatro pessoas custa mais de U$ 200, enquanto a mesa para seis sai por quase U$ 400.

MIAMI, Estados Unidos. - A Corporação CIMEX anunciou nesta segunda-feira que os emigrantes cubanos poderão realizar um jantar de passagem de ano para seus familiares na ilha. A "oferta especial" será realizada na Plaza de la Catedral, em Havana, e contará com um espetáculo "Concerto de gala”, indicou também a CIMEX, propriedade do conglomerado de empresas militares cubanas GAESA.

A corporação pediu aos que desejam dar "uma noite maravilhosa" aos seus familiares em Cuba que visitem o site do centro comercial La Puntilla, onde se especificam as duas ofertas disponíveis: mesa para quatro pessoas no valor de $ 242,66 USD e  de seis pessoas por $ 363,99 USD.

Em meio à grave crise econômica que atravessa a ilha, marcada pela escassez de alimentos e outras necessidades básicas, os cubanos não demoraram a reagir à proposta “escandalosa” do CIMEX.

“Proposta dirigida aos ex-traidores, agora “traedólares” (trazem dólares). Quanto cinismo! ”, escreveu a usuária Betty Black. “Nós, cubanos no exterior, financiamos a ETECSA, as lojas do MLC, as roupas, a comida, os sapatos, a VIDA de nossos parentes em Cuba, agora eles também querem que paguemos a eles a corrente, preços exorbitantes por uma famosa ceia de Natal. O que mais eles vão pedir de nós? Onde foi parar o adjetivo ‘bastardo’, o ‘não os queremos’, o ‘não precisamos deles’? Esqueceram? ”, questionou também a internauta.

Black refere-se a várias medidas do regime que fazem parte da “Tarefa de ordenamento monetário”, com a qual o Governo não só aumentou os preços de serviços básicos como a eletricidade, mas também promoveu páginas na Internet para cubanos no exterior para custear as despesas de seus parentes em Cuba.

“A família que não tenho no exterior certamente ficará alarmada com tal quantia para um jantar de Réveillon, e se eu os tivesse e pedisse para aqueles de nós que estamos aqui, possivelmente me enterrariam vivo. Abusam! Será um final de ano apocalíptico ... ”, escreveu o usuário Reinier Pol.

Enquanto isso, Yasser Ches se dirigiu à CIMEX diretamente em outro comentário: “Vocês perderam todos os tipos de escrúpulos. A miséria moral turva o seu entendimento”.

 

Fonte: https://s3.eu-central-1.amazonaws.com/qurium/cubanet.org/noticias-cimex-propone-a-emigrados-que-paguen-una-cena-de-fin-de-ano-a-sus-familiares.html

  • Cubanet.org
  • 23 Dezembro 2020