• Percival Puggina
  • 12/02/2021
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AGORA, E SÓ AGORA, O CENTRÃO VIROU PROBLEMA?

 

Percival Puggina

 

         O Centrão, justificadamente, tem péssima imagem no país. Salvo um ou outro episódio que custo a lembrar, sua principal utilidade ocorreu durante o processo constituinte. E mais especificamente, no ano de 1988, quando um grupo numeroso de parlamentares liderados pelo PMDB se uniu para tentar abrandar um pouco as insanidades que o bloco de esquerda pretendia ver constitucionalizadas. Esse movimento deu causa ao racha do PMDB, que havia elegido mais da metade do plenário da Constituinte.

Como escrevi várias vezes referindo esse período, se fosse politicamente mais homogêneo, o partido de Ulysses Guimarães poderia ter redigido a Carta de 1988 numa sala de seu Diretório Nacional. Entre os senadores, apenas 14 não eram do PMDB. Na Câmara, 53% dos deputados eram a ele filiados. O partido, no entanto, rachou pelo lado esquerdo. Em fins de 1987, nove senadores e 39 deputados federais criaram o PSDB. Esse grupo já vinha trabalhando com o bloco de esquerda, sob liderança de Fernando Henrique e Lula.

E o Centrão? Mesmo na Constituinte, se de um lado diminuiu o estrago, como mencionei acima, de outro ajudou Sarney a derrubar o parlamentarismo que seria aprovado e o presenteou com um mandato especial de cinco anos, quando o previsto era quatro anos. Esse foi o tempo certo para o Centrão sentir o gosto do governo, dos cargos, dos bônus e nunca mais sair. Ficou com Sarney, seguiu duas vezes com Fernando Henrique, outras duas com Lula, outras duas com Dilma, depois com Temer e, agora, com Bolsonaro.

O mais curioso é que o Centrão, malgrado estar no poder há 32 anos, também sabe ser oposição. Mostrou isso nos primeiros 18 meses de Bolsonaro, paralisando, arquivando, derrubando, desfigurando todas as tentativas do presidente de dirigir o carro do Executivo com geometria e balanceamento adequados às expectativas vitoriosas na eleição de 2018. A gente viu no que deu.

O Centrão está ciente e a história faz prova: quem não tem maioria no Congresso ou não termina o governo (Getúlio, Jânio, Jango, Collor e Dilma) ou não consegue governar, caso de Temer, que ficou cumprindo o carnê. Na situação em que Bolsonaro estava em meados do ano passado, seu rumo estava ditado pela história. Ou o Centrão, ou mais quatro anos estéreis para o país, ou porta da rua serventia da casa, via Congresso ou TSE.

Agora, partidos que, governando com o Centrão promoveram toda a lambança possível, e órgãos de imprensa que faturavam bilhões com a publicidade oficial fingem prestar atenção para essa longa história. Agora lhes caem as escamas dos olhos para a vida que passou diante deles durante mais de três décadas – vistosa, ruidosa e dadivosa como uma escola de samba na avenida! Me poupem dessa hipocrisia.

Pode parecer estranho, mas será o modo como Bolsonaro vai operar a relação com o Centrão que vai influenciar mais diretamente o resultado eleitoral de 2022. Se ele não andar por onde outros atolaram e se extrair do Centrão aquilo que se espera de uma base do governo, terá prestado um bom serviço à nação.

*Publicado originalmente em Conservadores e Liberais, o site de Puggina.org.

* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.

 

 


Maria Luisa Sartorelli -   15/02/2021 12:06:59

Pelo que pude compreender das minhas leituras e do que todos testemunhamos, especialmente nos últimos dois anos, temos um modelo de governo nominalmente presidencialista, porém parlamentarista de fato. Portanto, o problema é estrutural, e não do presidente A ou B. Sugiro não desperdiçarmos energia e tempo (visto que a vida é curta) com falsos diagnósticos. Qual o verdadeiro problema? Minha opinião, corrijam-me, se estiver errada: A partitocracia, que se instalou definitivamente com a instituição do financiamento público de suas estruturas de poder. Como desmontar esse esquema sem propor golpes, constituintes e que tais? Adoraria ver õ problema real ser discutido e possíveis soluções não mirabolantes serem aventadas, para que possamos tomar uma atitude concreta que nos liberte dessa paralisia que já se arrasta há décadas.

Carlos Edison Fernandes Domingues -   14/02/2021 19:52:26

PUGGINA ! Um Poder Constituinte, representado por legendas partidárias, com Senadores e Deputados Federais eleitos para cumprir um período legislativo, empenhados na recondução e, assim, se perpetuando, só podia dar no que deu. No Brasil tudo é fácil de qualificar: a nossa Carta é "Cidadã" Carlos Edison Domingues

PERCIVAL PUGGINA -   14/02/2021 12:17:36

Para melhor “qualificar-se” à crítica, o leitor José João manifesta sua admiração de modo inédito e retrógrado. Demonstra não haver entendido coisa alguma dos últimos 32 anos de história do famigerado presidencialismo brasileiro. Esquece que o presidente resistiu durante dois anos (metade de seu mandato!) às pressões da realidade para fazer do Centrão sua base de apoio. Teve contra si o próprio Centrão, a inteira oposição e o STF. Um massacre. Os projetos que seriam marcantes para seu governo foram todos rejeitados, as MPs venciam sem deliberação, os projetos retalhados, desossados, virados pelo avesso. Ele pressupõe que Bolsonaro deveria seguir assim, com o governo esterilizado, até o final do mandato... Ele pressupõe que o Centrão, no governo atual, poderá fazer o mesmo que fez nos 32 anos anteriores? Com base em quê? É exatamente disso que trata o último parágrafo do artigo acima. Imagino que José João já tenha um nome na ponta da língua para sentar na cadeira presidencial. Vade retro!

José João de Espíndola -   13/02/2021 18:27:16

A lógica expendida pelo autor deste artigo (Percival Puggina) - a quem eu sempre admirei, mas não posso deixar de criticar agora - parece ser: Se o poder está com os corruptos (diga-se Centrão, diga-se Arthur Lira), une-te a eles para fazer as coisas andarem. “Une-te” significa: rende-te a ele (Centrão) e esquece os princípios éticos pelos quais foste (Ó, Bolsonaro) eleito. Une-te significa lotear (como, de fato, Bolsonaro está loteando) o governo, fato que Bolsonaro jurou, por todos os santos, na campanha eleitoral, jamais fazer. Só para eleger o enrolado em crimes de corrupção, Arthur Lira, foi prometido ao Centrão quatro ministérios (além de muitos cargos no segundo escalão), e cerca de R$ 13,5 bilhões em liberações de emendas de deputados federais. Une-te a ele, o Centrão e adjacências, foi precisamente o que Lula fez. Para conseguir “capital de giro” e poder pagar o Centrão, Lula instituiu o Mensalão que, após desmascarado e tornado público, foi substituído pelo Petrolão. Mensalão e Petrolão foram formas que o PT achou para manter o governo razoavelmente ideologizado (ou seja não entregar todos os cargos e ministérios ao Centrão) e, ainda assim, comprar o apoio daquele bloco fisiológico para poder governar. Sim, a lógica expendida pelo autor deste artigo não é nova: foi a mesma usada por Lula. Só que agora é legitimada pelo raciocínio binário que permeia a mídia dita de direita: se você aprova a prática do fisiologismo regido por Bolsonaro, você é um patriota. Se aprova a prática do fisiologismo regido por Lula, ou Temer, você é um canalha. Vade retro!

Marilene Brandalise -   12/02/2021 15:04:43

Verdade. Em 87, caí como uma patinha no discurso da social democracia que viria para lutar contra a corrupção do PMDB. Ajudei a fundar o PSDB em Florianópolis. Nunca imaginei que seria mais soldado nas trincheiras dos comunistas... que ingenuidade. Se arrependimento matasse...

Jose Ricardo -   12/02/2021 12:28:48

Não há como negar que o ex-presidente Rodrigo Maia - agora autodeclarado opositor ao governo Bolsonaro - obstruía o governo ao agir como uma espécie primeiro ministro. Agora sob comando do centrão e apesar dele, algumas reformas passarão, bem mais tímidas devido ao pedágio pago. Bastou poucos dias no intuito de mostrar serviço e se diferenciar de Maia, Lira desengavetou o projeto de autonomia do BC que dormia há décadas na gaveta dos ex-presidentes da Câmara.

Avelina Patrício da Costa -   12/02/2021 11:20:17

Eu apoio Bolsonaro presidente em 2022.

Elvio Rabenschlag -   12/02/2021 10:20:21

Parabéns pelo seu comentário e lembrar a atuação histórica do MDB. Hoje, na verdade os que combatem o Centrão são PSDB por excelência.

Ariel Balz -   12/02/2021 10:15:19

Dizem por aí, que o povo tem memória curta. Boa lembrança. Na realidade é disso que se valem os maus políticos.